Opinião – Sobre a polêmica do gênero em Cyberpunk 2077
- Gabriel Chilio Jordão
- 4 de set. de 2019
- 4 min de leitura

Poucos games nos últimos anos (em toda essa geração de consoles, me arrisco a dizer) atraíram mais atenção e expectativa do que Cyberpunk 2077, da produtora polonesa CD Projekt Red. Anunciado pela primeira vez num distante 2013, o jogo permaneceu num incrível limbo de cinco anos até ter algo novo mostrado. Na E3 (maior conferência de games do mundo) de 2018, um trailer cinematográfico foi mostrado. A expectativa já era alta pelo nível absurdo atingido pela produtora em seu último game, The Witcher 3: Wild Hunt. O trailer não só consolidou que os poloneses parecem estar no caminho certo, como mostrou que tem coisa muito interessante vindo por aí.
Um trailer de gameplay de impressionantes 43 minutos foi mostrado em agosto de 2018, e só aumentou a expectativa. Seria mais um RPG, especialidade da casa, onde praticamente todos os detalhes da vida do personagem poderiam ser customizados, como corte de cabelo, orientação sexual, motivações na vida (!!) e até mesmo o passado (!!!). Os visuais e as temáticas do game pareciam estar saindo diretamente das páginas de um romance de William Gibson.
Estamos em 2019, e a empolgação dos fãs não só não diminuiu como aumentou muito. Na E3 desse ano, um novo trailer cinematográfico foi exibido, revelando pela primeira vez (depois de anos de sofrimento e especulação) a data de lançamento: 16 de abril de 2020. Como se tudo mostrado não fosse o suficiente, ainda havia a cereja do bolo: ninguém mais ninguém menos do que Keanu Reeves, uma das divindades da internet, interpretará um dos personagens principais do game.

A expectativa não poderia estar mais alta, e um recente trailer, mostrado na Gamescon (importante evento realizado na Alemanha), só confirmou que podemos estar diante de um jogo memorável: as várias possibilidades de se realizar uma única missão, desde qual sua classe (básico dos RPGs) até as decisões que você tomou antes mesmo de começar podem influenciar o decorrer da missão. Incrível.
Um pequeno detalhe, que inclusive passou despercebido para muitas pessoas (eu incluso), gerou um certo furdunço nas redes nos últimos dias: na criação de seu personagem, você não terá a opção de escolher o seu gênero, mas sim seu corpo. Sinceramente achei uma decisão de uma rara genialidade, e que combina completamente com o tom futurista e cyberpunk do game.

Faz TOTAL sentido
Para os que não conhecem, o cyberpunk é um (fascinante!) subgênero da ficção científica, caracterizado por histórias sobre futuros distópicos onde a tecnologia atingiu níveis inimagináveis, megacorporações mandam no mundo, as desigualdades sociais estão maiores do que nunca e o transumanismo (uso de aparatos cibernéticos, máquinas e outras tecnologias para o aprimoramento humano) é bem difundido. Mais do que dono de visuais estilosíssimos e debates interessantes sobre humanidade, serve também como alerta para o rumo que podemos estar tomando enquanto espécie e como a tecnologia pode mais do que ser parte do nosso cotidiano, ser parte dos nossos corpos. Além disso, tendo como base a época em que começou a ser amplamente usado (segunda metade do século XX), onde tecnologias muito avançadas e androides eram coisa de cinema, serviu como uma importante metáfora para a forma como o ser humano historicamente lidou com “O Outro” (no caso das obras cyberpunk, androides, robôs, replicantes e por aí vai).
É antiético e cruel agredir um robô? Um cãozinho robô, inclusive?
Antes de continuarmos falando sobre cyberpunk (o gênero e o game), um olhar sobre a tecnologia no mundo real. Vivemos em uma era onde, apesar de discursos de ódio estarem voltando à moda (se é que algum dia saíram), os avanços na tecnologia e no campo social derrubam qualquer divisão binária e dual de gênero. Existem os que nasceram com um corpo, mas que não se identificam nele, como existem os que não se identificam com nenhuma das duas opções pré-existentes. Além das óbvias cirurgias de mudança de sexo, implantes, tatuagens, estilos de roupas e outras modificações corporais (que não precisam necessariamente ser feitas por robôs ultra avançados, ao contrário do que se possa pensar no imaginário. Colocar um brinco já é uma modificação corporal) são formas de as pessoas sentirem-se únicas e confortáveis em seus corpos. Posso estar em corpo tipicamente masculino, mas não me identificar como homem. O mesmo vale para uma mulher.
Esse cenário, como dito, não seria possível sem os avanços tecnológicos que possibilitaram a alteração de nosso código genético, formação hormonal etc. É nada mais do que ideal que isso seja representado de maneira tão fiel como parece estar sendo em Cyberpunk 2077, cuja distinção mais óbvia é se passar no futuro.
Uma outra questão que influencia, sem ser de forma alguma menos importante: a representatividade para todos é fundamental em todos os tipos de mídia (falamos sobre isso na recente matéria sobre mulheres e games), e essa, que para muitos é uma minúscula decisão da CD Projekt Red, mostra que estão comprometidos com a inclusão e com políticas que deem voz a grupos historicamente oprimidos. É um pequeno detalhe que faz toda a diferença quando analisado cuidadosamente.
Em entrevista, Marthe Jonkers, uma das artistas do game, falou sobre o assunto. De acordo com ela, a ideia é justamente derrubar qualquer tipo de escolha binária, dando liberdade total a todos que jogarem, para reproduzir qualquer que seja o tipo de estética que mais lhe agradar.

A decisão da CD Projekt Red de remover a dualidade homem/mulher na criação de personagem de Cyberpunk 2077 é um acerto por dois motivos: mostra devido respeito ao grupo atingido (e, vamos combinar, isso não é ofensivo para ninguém) e combina perfeitamente com a temática do jogo. O personagem controlado é repleto de modificações cibernéticas. É impossível dizer se a única coisa que sobrou de seu corpo original não é apenas a sua consciência (ponto para quem encontrar a referência a um clássico cyberpunk na última frase), portanto é totalmente compreensível deixar a escolha simplesmente como “corpo”, e não “gênero”.
A produtora desse que promete ser um memorável game mostra que conhece perfeitamente o gênero que está trabalhando, e que está em dia com as discussões sociais do mundo. Aos que se incomodaram, talvez caiba uma reflexão: se entendeu mesmo do que se trata o cyberpunk, ou se o pensamento não é retrógrado mesmo.











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