80 anos do Batman, um ícone que transcendeu os quadrinhos
- Gabriel Chilio Jordão
- 1 de out. de 2019
- 9 min de leitura

Em maio de 1939 foi lançado nas bancas americanas um gibi que, no momento, parecia apenas mais uma tentativa de sucesso de uma indústria que começava a mostrar sua força. Assinado por Bob Kane e Bill Finger, o quadrinho Detective Comics #27 introduzia um playboy chamado Bruce Wayne, que nas noites da fictícia cidade de Gotham vestia-se de morcego e saía as ruas para combater o crime, com a alcunha de “Batman”.

80 anos depois disso, o personagem introduzido não só é questionavelmente o mais famoso da história dos quadrinhos (com sua única concorrência sendo um rapaz que usa cueca sobre as calças), como é um dos ícones mais importantes e proeminentes de toda a cultura pop. Além disso, possui algumas das obras mais conceituadas de todos os personagens de quadrinhos por todas as formas de mídia (HQs, filmes, animações, jogos).
A origem

A história de origem do personagem é tão famosa que se tornou um dos pontos marcantes do herói. Bruce Wayne o jovem filho da mais importante e rica família de sua cidade natal, Gotham City (que foi inspirada em Nova Iorque). Era o típico rapaz com a vida feita.
Uma fatídica noite foi o suficiente para mudar tudo isso, no entanto. Em uma saída do teatro, a família Wayne (além do jovem Bruce, Thomas e Martha) é abordada pelo ladrão Joe Chill. Um choque de realidades: uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos é confrontada por um mísero ladrãozinho.
Resumidamente (resumindo uma história que 95% da população mundial conhece a esse ponto), tudo o que poderia dar errado, dá. Uma “simples” tentativa de furtar algumas joias torna-se um homicídio, que para sempre mudaria a história da cidade. Thomas e Martha Wayne encontram-se mortos ao chão, e o jovem Bruce está sozinho.
Essa tragédia, por si só um dos momentos mais famosos e impactantes da história da cultura pop, representa um ponto de virada para o príncipe de Gotham. Sentado e chorando no sangue e cadáveres de seus pais, o rapaz faz uma promessa: livrar a sua cidade do mal que matou seu pai e sua mãe. Naquela trágica noite, uma ideia nascia na cidade de Gotham.
O homem e o símbolo

O resto da história todos nós já sabemos. Munido de uma quantidade absurda de dinheiro deixada pela família, Bruce viaja o mundo para se especializar em artes marciais, criminologia, ciências e mais algumas coisas (aprende uma quantidade surreal de línguas, se forma em quase tudo que é possível e por aí vai).
A pessoa que retorna à Gotham anos depois não é um rapazinho amedrontado e sem rumo na vida. O novo Bruce Wayne é um homem disposto a colocar em prática o juramento que fez em cima dos corpos de seu pai e mãe.
Algumas questões, agora olhando herói Batman, tornam-o tão marcante: o Batman habita um universo onde a grande maioria dos heróis estão entre os mais fortes de toda a cultura pop. Em um mundo com seres do nível de Superman, Flash, Mulher Maravilha e Lanterna Verde, o Batman ainda consegue ser uma figura fundamental. Nada nele é sobre-humano, é sua inteligência, preparo (que infelizmente virou um meme mal utilizado), dinheiro (investido em carros que mais se assemelham a tanques de guerra e engenhosos aparelhos) e acima de tudo, força de vontade que tornam-o uma figura tão assustadora para seus oponentes.
Por um outro lado, o símbolo que o Batman significa. Duas questões: por que um morcego? A resposta é uma das mais originais e diferentes de todos os personagens dos quadrinhos. O medo. Estudando criminosos, nosso querido milionário descobriu que se trata de uma espécie supersticiosa. Tendo isso em mente, Bruce, que por sua infância inteira tinha pavor de morcegos, tem uma ideia: fará os criminosos compartilharem esse medo. Em um post recente do blog, analisamos o efeito que o uniforme de Homem-Aranha exerce sobre a pessoa Peter Parker. Podemos perceber algo muito parecido aqui. Vestido de Batman, Bruce Wayne transforma-se de um garoto que ainda não superou a morte dos pais em um símbolo de absoluto terror para os criminosos de Gotham.
OBS: Um dos momentos mais marcantes da história do personagem ilustra justamente isso. Na célebre e aclamada HQ “Ano um”, temos um Bruce Wayne em dúvida sobre essa questão de traje e como esconder sua identidade secreta. Em um momento de reflexão, observando a figura de seu pai, um morcego estilhaça uma das janelas da mansão Wayne, e Bruce entende o recado. “Sim, pai. Eu me tornarei um morcego”, ele afirma.

Analisando agora o que a figura do homem-morcego representa para a cidade de Gotham. Pouquíssimas pessoas sabem que Bruce Wayne é o Batman (falaremos sobre algumas delas daqui a pouco). A ideia, reforçada em HQs, filmes e outras mídias, é que qualquer um poderia ser o Batman. O homem que sai às ruas todas noites simboliza um cidadão que está cansado do mal que assola sua cidade, e decidiu fazer algo a respeito.
Existe ainda a questão da moralidade em suas ações. Ele é um vigilante que quebra as leis toda noite. Ele opera com uma única regra: nunca matar. Ninguém. Nem o maior dos canalhas. O motivo? Matando, ele torna-se tão baixo quanto aqueles que ele combate. Um motivo tão simples, e ainda tão icônico e que nos diz muito sobre o personagem.
A Bat-família

Existe uma ideia de que o Batman trabalha apenas sozinho. Embora muitas vezes o próprio personagem recuse e/ou olhe com maus olhos a ideia de uma companhia, a verdade é que desde o começo de sua jornada Bruce nunca esteve sozinho. Começando por aquele que é provavelmente o mais importante de todos. Alfred Pennyworth. O fiel mordomo da família Wayne, é uma das pouquíssimas pessoas em quem o paranoico Bruce Wayne deposita toda sua confiança. Além disso, Alfred é quem melhor conhece e entender Bruce, e isso é dizer alguma coisa.
Temos ainda as variações de garotos prodígios. Uma tentativa (das mais bizarras) do personagem de ter algum resquício de uma relação pai e filho. Por mais que tenha se tornado um motivo de piada (certo dia Batman estava sem o que fazer. Decidiu procurar um garoto órfão para jogá-lo no insano e perigoso mundo dele), há um motivo profundo ao personagem Batman para a existência dos Robins. Bruce se vê obrigado a continuar lutando (por mais que já tenha se provado há muito tempo), e é na ideia de um Robin que ele vê duas coisas: uma vontade de satisfazer seu desejo de ser pai, que em sua vida é impossível, e o também desejo de deixar pessoas dignas de assumir seu legado caso algo aconteça com ele. Apesar da maioria das experiências ter dado certo (Dick Grayson, o primeiro Robin, assumiu o alter ego de Asa Noturna e alça voos próprios há muito tempo), existirá sempre a sombra de Jason Todd, o garoto que Bruce trouxe ao seu mundo, e não foi capaz de salvar. Talvez ter uma figura jovem ao seu lado ajude o Batman a não ultrapassar o limite.
Além dos já citados, temos ainda outras pessoas que ajudam o morcegão (somos íntimos). Barbara Gordon, a Oráculo. Por um bom tempo uma empolgada vigilante, zanzando ao lado do Batman como Batgirl, sofreu um destino trágico nas mãos do Coringa. Não que isso sirva de desculpa, ela continua ajudando Bruce. Apenas mais uma pessoa envolvida com o Batman que sofreu. Ossos do ofício.
Ainda temos que falar de dois aliados do nosso Cruzado Encapuzado. Jim Gordon, comissário de polícia, é, ao lado de Alfred, o aliado mais antigo de Batman. Uma luz de honestidade e integridade em meio a uma polícia majoritariamente corrupta. Sofreu tanto quanto Bruce em sua vida na louca cidade de Gotham, mas mantém-se irredutível. Muitas vezes, inclusive, é Gordon quem lembra Batman de não atravessar a linha. Estranhou o sobrenome? Pois trata-se do pai de Barbara Gordon. A vida em Gotham City não deve ser das mais fáceis.
Por último, não menos importante: Selina Kyle, a Mulher-Gato. Uma garota que viveu praticamente o oposto de Bruce. Pobre, trabalhou em algumas das ocupações mais baixas que um ser humano poderia ter (por necessidade). Vivendo no submundo de Gotham, tornou-se uma exímia ladra, e possui uma surpreendente habilidade com artes marciais. Por muito tempo, ela e Batman estiveram em lados opostos, com o homem-morcego correndo atrás da audaciosa ladra. Com o passar do tempo, no entanto, Bruce foi capaz de mudar a cabeça de Selina, e em muitos momentos (não todos, diga-se) ela trabalha do lado dos bonzinhos. Uma inevitável paixão nasceu desses longos anos de convívio, ainda que nem sempre harmonioso.
Resumindo: o Batman não trabalha sozinho, e muitos de seus companheiros só tornam ele e sua mitologia ainda mais fascinante.
Os vilões

É impossível falar do que representa o Batman para o imaginário da cultura pop sem falar de seus adversários. Simplesmente a maior galeria de vilões de todos os tempos. São antagonistas absurdamente marcantes que atacam o nosso herói de maneiras diferentes. Temos figuras históricas para os quadrinhos, e alguns dos maiores vilões do gênero: Pinguim, Charada, Espantalho, Bane, Duas-Caras Sr. Frio, Hera Venenosa, Cara de Barro, Ra’s al Ghul, Arlequina, Crocodilo. Alguns dos vilões mais marcantes e bem construídos da história dos quadrinhos, que atacam nosso herói por todas as frentes: seu intelecto, seu físico, seu medo. Inevitavelmente fazem parte do que torna o Batman tão marcante. Não só se trata de ótimos vilões, como são personagens ótimos.
Ficou faltando alguém naquela lista, não? Pois é, também achei. Se formos falar do Batman, obrigatoriamente temos que falar sobre seu completo oposto. Para muitos, inclusive eu, trata-se do maior vilão de todos os tempos: o Coringa.

Ele e o Batman formam o mais completo e perfeito equilíbrio. A ordem e o caos. A justiça e o crime. Mesmo se tratando de arquirrivais, uma das melhores relações dos quadrinhos.
O palhaço Príncipe do Crime já passou pelas mais diversas adaptações: por vezes, assemelha-se a um palhaço mesmo; em outras ocasiões, é apresentado como um homem no auge da sua sanidade, que aparentemente entendeu o mundo melhor do que todos. Alguns dos mais brilhantes momentos do Batman estão diretamente envolvidos com o Coringa. Para uma obra em específico que ajuda a ilustrar como o vilão é tão impressionante, recomendo a clássica e história graphic novel “A Piada Mortal”, do gênio Alan Moore. Nela temos não só um dos momentos mais violentos e chocantes da história das HQs (SPOILER: Barbara Gordon sendo aleijada pelo Coringa), como um excelente estudo do vilão como um todo e de sua relação com o Batman. Na HQ entendemos um pouquinho melhor do que se passa na cabeça de um homem completamente insano, e o que o motiva a continuar fazendo o que faz. O que é dito por ele atormenta nosso herói até hoje, e nos faz pensar se ele não está certo: basta apenas um dia ruim para acabar com o mais são dos homens.
Os maníacos e psicopatas que o Batman persegue incansavelmente todas as noites são parte fundamental do que tornam o herói tão icônico. Existiriam esses monstros se não existisse o Batman? Sua presença os motiva a sair da toca? Perguntas e análises a serem feitas, e que só tornam a bat-mitologia mais fascinante.
Um ícone multimídia
Para quem quer degustar do Batman no seu melhor, parta sem dúvida dos quadrinhos. Não só é onde ele surgiu, como é lá onde estão alguns de seus melhores momentos e histórias. Apenas para citar alguns: Ano Um; Piada Mortal; O Cavaleiro das Trevas; O Longo dia das Bruxas; Silêncio; O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?; Morte na família; Morte da família; Knightfall; Asilo Arkham: Uma séria casa em um sério mundo; Vitória Sombria; Corte das Corujas. Isso foram apenas algumas. Apesar disso, algumas histórias aqui estão entre as mais brilhantes de todos os tempos nos quadrinhos.

Isso não quer dizer, no entanto, que o personagem esteja limitado à boas histórias apenas nos quadrinhos. Muitíssimo pelo contrário. O personagem é responsável por algumas das melhores coisas envolvendo super-heróis em outros gêneros. Temos: a melhor série animada de herói de todos os tempos (“Batman: The Animated Series”. Dessa série nasceu o filme animado “A Máscara do Fantasma”, igualmente icônico), o melhor jogo de herói de todos os tempos (“Batman Arkham City”, e a série Arkham como um todo) e discutivelmente o melhor filme de herói de todos os tempos (“O Cavaleiro das Trevas”. Além desse, muitos outros filmes dele são ótimos, como os de Tim Burton e a trilogia de Christopher Nolan como um todo).
Entre Christian Bale, Heath Ledger, Michael Keaton, Jack Nicholson, Val Kilmer, George Clooney e por aí vai, tenho uma opinião um pouco controversa: para mim, as melhores adaptações já feitas do Batman e do Coringa encontram-se nas vozes de Kevin Conroy e Mark Hamill, respectivamente. Exatamente como eu imagino que suas vozes e trejeitos sejam quando leio suas HQs.
Simplesmente histórico
O Batman é uma das figuras mais famosas, importantes e marcantes de todos os tempos. Nesses seus 80 anos, produziu nas mais variadas formas de mídia algumas das histórias mais marcantes já feitas. Não só o morcego, sua mitologia e seu mundo tornaram-se igualmente populares na cultura pop. É muito difícil imaginar como seria o imaginário popular sem nomes como Batman, Coringa, Batmóvel, Gotham City, entre outros.
As comemorações e festas que estão sendo feitas pelo mundo todo a um personagem de histórias em quadrinhos é mais do que merecido para aquele que, analisando seu impacto nos dias de hoje, é um dos ícones (transcendendo a cultura pop) mais famosos DA HISTÓRIA. Mantendo-se no mais alto nível de relevância por inacreditáveis oito décadas, é também uma clara demonstração do poder e da influência que o entretenimento tem nas nossas vidas.














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