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CCXP 2019 - Vivendo o nosso mundo

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 11 de dez. de 2019
  • 4 min de leitura

No post introdutório deste blog, falamos sobre a importância de ser nerd, especialmente para quem é nerd. Uma possibilidade de escapismo para uma realidade dura e cruel na maioria das vezes, uma chance para ter algum personagem em quem se inspirar para toda a vida. Para muitos, sentir-se pela primeira vez na vida aceito, pertencente a algum lugar.


No Brasil, sempre foi muito difícil poder demonstrar abertamente esse amor por essa cultura que hoje é dominante no mundo inteiro. Filmes de quadrinhos lideram nossas bilheterias e temos eventos como o Anime Friends e a Brasil Game Show, mas são eventos muito nichados. Nunca tivemos nada que pudesse nos unir enquanto uma cultura, enquanto apaixonados por uma coisa em específico: ser nerd.


Em 2014, um grupo de jovens nerds e empreendedores resolveram tentar mudar isso. Conseguiram parcerias com empresas que acreditaram no projeto e negociaram por longos meses com astros que topassem vir ao Brasil. O resultado: em 4 de dezembro daquele ano teve início a primeira Comic Con Experience (ou CCXP) da nossa história. Inspirado no evento de mesmo nome dos Estados Unidos, a ideia era juntar todo o mundo nerd em um centro de convenções por cinco dias que ficariam marcados para sempre na memória de todos que fossem.


Deu certo.


Cinco anos depois, a CCXP de 2019 atingiu um número simplesmente inimaginável e assustador, mas que enche todos nós de orgulho: 262 mil participantes, o que torna oficialmente a convenção realizada no São Paulo Expo o maior evento de cultura pop do mundo (superando com facilidade o segundo colocado, a própria Comic Con norte-americana, com 135 mil participantes esse ano). Inacreditável.


Presenciei na pele pela primeira vez esse ano o evento, para ver se era mesmo tudo isso que falavam. Fui prometido um evento onde não era necessário ter a menor vergonha de ser nerd e gostar de todas aquelas coisas. Resolvi levar isso ao pé da letra. Improvisei de última hora, misturando algumas peças de roupa, uma fantasia de um personagem que estará para sempre comigo (mentalmente e fisicamente).


Concordo, não ficou lá muito parecido. E isso realmente importa?

Passadas mais de dez horas lá dentro, o que posso dizer? O que senti lá dentro?

Encontrei pessoas de todos os tipos lá. Cosplayers de uma qualidade absurda, fãs emocionados de estarem lá e estarem prestes a conhecer alguém claramente muito importante em suas vidas, e até mesmo aqueles que nem pareciam ser tão fãs assim, só estavam acompanhando alguém ou possivelmente se interessaram pelo evento. Vale.


Para uma pessoa introvertida e tímida, encarar situações como essas exigem um certo tipo de preparo, e sempre trazem uma carga emocional e de ansiedade fortíssima. Uma pessoa dessas fantasiada, ainda por cima?


Garanto a vocês com toda a confiança que espero ter extraído na nossa convivência (ou na leitura de nossos textos): não senti absolutamente nada disso. Lá dentro, me senti mais pertencente do que em qualquer outro lugar que já fui. Sabia do que todos estavam falando, e todos sabiam do que eu estava falando. Não entendia a fantasia de todo mundo, e muitos não entenderam a minha. E tudo bem. Eu fui para lá com algo em mente: estava lá para, mais do que qualquer coisa, celebrar. Celebrar como é bom gostar dessas coisas. Como eu definitivamente não estou sozinho. Como nossa cultura, como nós, mandamos no entretenimento do mundo hoje. Como não preciso mais me esconder.


Em um ano de muito aprendizado, marquei a cultura pop duas vezes na minha pele (no mesmo braço, se quer saber). Pretendo continuar. E entrar naquela convenção me fez ter certeza de que não foi um ato impulsivo. Eu gosto de ser nerd. É isso que me faz feliz, me faz sentir que pertenço a alguma coisa, que tenho uma tribo.


Foi um evento perfeito? Claro que não. Algumas pequenas falhas e problemas de comunicação fizeram surgir críticas (com razão) por parte dos participantes aos organizadores. Mas isso talvez fique para outro texto. Meu objetivo, pelo menos hoje, não é falar sobre erros técnicos e falta de transparência.


Nas poucas horas em que estive na CCXP deste ano, percebi que era um evento feito para nós. E por alguns de nós.


Lá, não havia peso, etnia, orientação sexual ou mesmo língua que impedisse todos de se sentirem pertencentes a um grupo de apaixonados. Mesmo com as pequenas falhas, no geral todos sentiram-se mais fortes. Fortes por serem nerds. E por saberem que hoje isso é motivo de muito orgulho.


Estou fazendo propaganda de graça para um evento que provavelmente nem sabe que eu existo, mas não tem problema.


Ele não é nem um pouco acessível paras boa parte da população brasileira. E isso cabe uma necessária e fundamental discussão para o futuro. Mas, se tiver a oportunidade, e se for um nerd, não importa de qual tipo, só vá. Vai valer muito a pena.


E reconheça: somos palco de um dos maiores eventos do mundo inteiro e todas as grandes empresas da cultura pop querem vir para cá agora.


Isso é muito importante. E muito forte.


Seja nerd. E tenha muito orgulho disso.


A cultura nerd tem seu mais novo lar. Fotos por Gabriel Chilio e redes sociais do Omelete e CCXP.

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