(Opinião) – Por que o Homem-Aranha é tão especial?
- Gabriel Chilio Jordão
- 8 de ago. de 2019
- 5 min de leitura

Existem poucas sensações como a de encontrar um personagem (em qualquer forma de mídia: um filme, uma série, um jogo, um quadrinho) com o qual você se relacione. Ele não precisa ter os mesmos problemas que você, pode viver numa realidade completamente diferente da sua. Mas ele parece humano, passa por situações que imaginaríamos um de nós passando. E, para alguém que precisa, isso pode ser tudo o que importa.
Mas o que significa precisar? Bom, como todos sabemos, o entretenimento que consumimos é para muitos de nós a melhor (em alguns casos a única) forma de escapismo do mundo, que é cruel e impiedoso na maioria das vezes. E quando buscamos fugir dessa realidade, não há nada como ver um personagem que também passa por problemas, que nos lembra que até os mais fortes podem sofrer. O valor disso é especialmente sentido nos milhões por aí, que não tem a habilidade (ou até mesmo a capacidade) de se relacionar com os outros, de fazer muitos amigos. Para essas pessoas a vida será dura em dobro, e ter ídolos dentro da cultura pop que mostram que é normal ser vulnerável é algo simplesmente impagável. Muitas vezes, a motivação para seguir em frente vem desses ídolos, em um mundo que exige deles algo que eles não podem oferecer.
Poucos personagens incorporam tanto isso como Peter Parker, o Homem-Aranha. Desde sua primeira aparição, nas páginas de Amazing Fantasy #15, em 1962, o Cabeça de Teia conquistou milhões de corações por ser “gente como a gente”, por vermos-o em situações que muitos de nós já passamos, mesmo vivendo em um mundo habitado por super-heróis e ameaças intergalácticas.
O que dentro do personagem incrível que é Peter Parker torna-o tão facilmente relacionável? Para mim, a reposta mora em dois pontos de seu universo: a pessoa Peter Parker e os problemas de Peter Parker.
A pessoa
Desde sua primeira aparição já começamos a saber coisas importantes sobre Parker. No começo, trata-se de um jovem de 15 anos que vive com os tios. Toma café da manhã com eles todas as manhãs, e fica feliz da vida quando sua tia te dá um aparelho científico de presente. Peter é extremamente estudioso e sempre vai bem na escola. O rapaz é franzino, no entanto, e é constantemente implicado pelos valentões da escola (estamos nos anos 60 pessoal, os clichês ainda estavam em formação). Pela sua aparência, Peter também é extremamente tímido, tem poucos amigos e não tem coragem de conversar com as garotas.
Os traços físicos e psicológicos de Peter te lembram alguma coisa? Ele é o estereótipo clássico do nerd. Esqueça por um momento sua aparência física, e imagine quantos jovens não se viram na pele do jovem nerd que apanhava na escola.
Eis então que chega o fatídico dia da picada da aranha radioativa. Além da história que tomos conhecemos, que ela dá ao rapaz poderes incríveis, falemos sobre o que essa picada representou para a personalidade de Peter Parker.
Com a máscara, Peter não é o nerdão do colégio de quem todos tiravam sarro. Ele é o ídolo de muitos desses valentões (inclusive Flash Thompson, o maior deles). Com a máscara, ele pode ser tudo aquilo que Peter Parker não pode. Com a máscara, Peter pode descarregar todas as mágoas e frustrações que sua vida como Peter Parker o trazia. Ele não é mais o excluído, ele é o maioral, ele é famoso.
Precisamos falar agora sobre o Homem-Aranha. Sim, são a mesma pessoa, mas não agem como a mesma pessoa. O alter ego de Peter Parker começa nos dando uma aula de psicologia. O suíço Carl Jung nos ensina sobre a “persona”, que podemos definir como "uma espécie de máscara projetada, por um lado, para fazer uma impressão definitiva sobre os outros, e por outro, dissimular a verdadeira natureza do indivíduo". Na persona de Homem-Aranha, Peter coloca (literalmente) uma máscara: é corajoso, piadista, tira sarro de todos que enfrenta, escondendo um adolescente morrendo de medo de enfrentar maníacos e psicopatas.
Como Homem-Aranha, Peter possui uma outra personalidade para lidar melhor com o mundo ao seu redor. Coincidência ou não, passar tanto tempo na persona do Aracnídeo altera a persona Parker: e não é que o rapaz começa a atrair a atenção das garotas, fazer amigos? Namora a garota dos seus sonhos?
É Peter Parker que começa a namorar Gwen Stacy e vira melhor amigo de Harry Osborn na faculdade, não o Homem-Aranha. É o Homem-Aranha, no entanto, que dá a Peter a coragem necessária para dar esses passos.
Antes de falarmos dos problemas do Aranha, um último detalhe. A noite em que seu amado tio Bem morreu, nas mãos de um ladrão que Peter não impediu porque não quis. Peter passa a viver todos os dias com essa culpa em seus ombros, e com a responsabilidade de não deixar que aconteça com os outros o que aconteceu com ele. Além de ser uma das principais características do personagem, essa responsabilidade por ele carregada veio de uma difícil lição, que todos nós precisamos aprender: a dor ensina. A morte de seu tio levou Peter a um outro caminho, assim como a dor nos amadurece para o mundo.

Os problemas
O Homem-Aranha é um herói que passa seus dias enfrentando assassinos, gênios do mal, e criaturas de outros planetas. Nos seus mais de 50 anos, no entanto, já vimos outros problemas, que sinceramente pareceram muito mais graves, entrarem no caminho de Peter Parker.
De primeira o mais conhecido, e que se tornou uma piada recorrente: o Homem-Aranha é pobre. Na trilogia de Sam Raimi, mora em um apartamento minúsculo. Nas HQs, o rapaz mora com a tia e depois vive de favor na casa do seu amigo Harry Osborn. Tira fotos de seu alter ego e se dá ao luxo de ser diariamente humilhado no Clarim Diário para poder pagar as contas. Apenas quando se casa com a modelo Mary Jane Watson é que vive em um lugar só seu. E ainda assim, as dívidas se acumulam. Essas questões financeiras que sempre fizeram parte do universo do personagem trazem um ar de realidade a ele, tornam-o mais relacionável. Diferente de todos os personagens principais da Marvel, o Homem-Aranha possui um problema real com dinheiro.
Além da grana, vemos que Peter possui problemas que todos nós já tivemos em algum ponto das nossas vidas. Enquanto zanza pelas ruas com o traje, fica pensando naquela garota que não teve coragem de se declarar, daquele pagamento que ainda não caiu, daquela tosse que sua tive que ainda não melhorou. Sentimos que é uma pessoa de verdade por trás daquelas páginas, que está com problemas que nós talvez tenhamos no momento em que estamos lendo.
Existe a famosa “sorte de Parker”, outra piada recorrente nos quadrinhos. As coisas sempre acontecem no pior momento possível para Peter; se uma situação em que ele está envolvido tem chance de dar errado, muito provavelmente dará. Resumindo: o rapaz é muito azarado. Quem nunca se sentiu assim? Como se o mundo estivesse conspirando contra você? Tudo dando errado?
Os problemas que o Homem-Aranha sofre fazem-nos pensar que ele é uma pessoa como todos nós que recebeu poderes, e agora que tem que lidar com os mesmos problemas e toda a responsabilidade da vida de vigilante.

Gente como a gente
Meu objetivo até aqui foi explicar por que acho o Homem-Aranha o mais humano de todos os personagens dos quadrinhos. Em um universo habitado por deuses e trilionários, sempre existe o bom e velho Cabeça de Teia para viver em um cenário mais parecido com o nosso.
Na minha opinião, é por isso que ele é tão adorado por tantos. Possui um toque de humanidade que o aproxima de todos nós. Possui alguns dos poderes mais interessantes e criativos das HQs, desvia de tiros a queima-roupa e enfrenta vilões do calibre de Dr. Octopus e Venom, e ainda precisa se preocupar com pagar as contas e comprar o remédio da sua tia doente.
Vejo que é também por isso que ele é o ídolo de tanta gente. Se ele, gente como a gente, conseguiu tudo o que conseguiu, por que nós não conseguiríamos?








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