Análise - O Incrível Hulk e a complexidade do monstro
- Gabriel Chilio Jordão
- 14 de abr. de 2020
- 9 min de leitura
Um olhar no que torna o personagem fascinante além da fúria

* Por Leonardo Chilio Jordão
Ciência. Transformação. Raios gama. Fúria. A partir dessas palavras, fica fácil distinguir qual assunto é a pauta desse artigo: o Incrível Hulk, herói de quadrinhos, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1962, numa revista de título homônimo, da Marvel Comics. Inclusive, o personagem, desde sua criação, foi muito fortemente ligado às palavras na introdução, e às imagens que elas remetiam. Uma fera descontrolada e raivosa, sedenta por destruição, que apesar de ser considerado um super-herói do panteão mais alto da Marvel, também é um perigo para seus aliados e para a sociedade, devido à instabilidade de sua raiva. E as imagens não estão erradas. As adaptações do Gigante Esmeralda para outras mídias, como filmes, séries de televisão e jogos eletrônicos, majoritariamente focaram nesse seu aspecto: o monstro incrivelmente forte e nervoso. Mas há um grande desserviço ao personagem em adaptar apenas sua versão externa. Ou sua versão mais fácil de vender e de criar uma conexão com o imaginário do público. Ele possui uma complexidade inerente ao seu cerne, que vai (muito) além do escapismo que sua raiva e destruição proporcionam.
Freud, literatura gótica de horror e Guerra Fria são outras palavras que facilmente definem o Incrível Hulk. Palavras que possuem uma densidade maior, e precisam de uma explicação mais profunda. É em relação a esse outro lado do personagem que esse artigo vai analisar. Vamos adentrar nas mentes (isso fará sentido ao decorrer do texto), nas inspirações e no contexto que fazem parte da criação do Incrível Hulk, e de seu alter-ego, Bruce Banner. E mostrar que há muito mais do que apenas um monstro verde e musculoso por trás de um dos heróis mais famosos da cultura pop.
Bruce Banner e Hulk não são a mesma pessoa? E quem os inspira?
Para entender o surgimento do Hulk, dentro de sua mitologia, voltemos para a primeira história em que o personagem deu as caras. Bruce Banner era um renomado cientista, que, com financiamento do governo estadunidense, estava construindo uma nova arma com fins militares: uma bomba de raios gama. No dia do teste, quando a bomba estava pronta para ser acionada, um garoto adentra na região delimitada para a explosão, sem dar importância para os avisos que era uma área restrita. Bruce, aqui incorporando o comportamento que se espera de um herói da Marvel, fala para seus superiores cancelarem a contagem regressiva da bomba, enquanto ele salva o garoto, retirando-o da área delimitada para a explosão. Banner consegue salvar o rapaz, mas um de seus superiores se nega a cancelar a contagem regressiva (atenção a esse personagem) e, no momento que Banner consegue tirar o jovem da área de perigo, a bomba explode, e ele é completamente bombardeado pelos raios gama provenientes da bomba. Seria o suficiente para matar qualquer ser humano, mas Banner acorda na cama do hospital militar, sem nenhum dano aparente. Era o que ele pensava.
Ao anoitecer, o cientista sente uma intensa ansiedade, e seu coração começa a acelerar mais do que o normal. Quando os últimos raios do sol se põem no horizonte, no lugar de Banner, surge uma criatura gigante, cinza (pasmem, o Hulk não é originalmente verde) e repleta de maldade e força. Essa foi a primeira aparição do Incrível Hulk dentro dos mitos da Marvel: um monstro criado a partir da explosão de uma bomba de raios gama. Até aqui, com exceção da cor do personagem, tudo está de acordo com o Hulk que existe no imaginário popular. Mas há um porém: quando emerge, o Hulk não possui a personalidade de Banner. Não é o tímido e inteligente cientista, mas uma criatura furiosa, sem as características de seu alter-ego. Ao longo dos anos, esse tema foi aprofundado, e a explicação para essa dualidade é: Bruce Banner e Hulk não são a mesma pessoa.
Na verdade, ambos residem dentro do indivíduo Bruce Banner, mas as personalidades diferentes são devido à mente conturbada de Banner. É aqui que a complexidade do Hulk ganha profundidade. Banner teve uma infância difícil. Seu pai era um dependente químico do álcool e uma pessoa propensa a ataques de raiva, frequentemente direcionadas à sua esposa e mãe de Banner. O jovem Bruce, incapaz de enfrentar essa realidade, traumatizou sua mente de uma forma que seria cabal para o personagem: ele desenvolveu transtorno dissociativo de identidade, ou desenvolveu personalidades múltiplas. Ao longo de sua vida, Banner foi criando, sem saber, outras personalidades, que surgiam em diferentes momentos e cenários. Até então, elas ficavam presas em seu interior. Até o fatídico dia da explosão da bomba gama. Ela não matou Banner, mas fez com que todas essas personalidades fossem acordadas, e fossem liberadas. O Hulk que surgiu ao anoitecer, então, não era apenas um monstro fortificado pelos raios gama, mas uma personalidade de Banner que foi liberada e agora podia se expressar sem as amarras de antes.

O monstro que se chama de Hulk é apenas uma das muitas personalidades do Dr. Banner que lutam para assumir o controle.
A aparição mais famosa do Hulk, a criatura verde (na verdade, um erro de impressão da gráfica, que agradou aos fãs), infantil e que fala na terceira pessoa, é a identidade de Banner da infância, incapaz de extravasar a raiva e a fúria contra seu pai abusivo, e que não tinha as capacidades cognitivas completamente formadas. Por isso, é comum ouvir o Hulk verbalizar algo como “Deixe o Hulk sozinho” ou “Você não vai gostar de ver o Hulk irritado”. É uma criança, cooptando com a fúria enclausurada, que quer ficar sozinha. Mas além deste Hulk, há outros também famosos em sua mitologia: Joe Fixit, um Hulk novamente cinza, que aflora em Las Vegas, que é muito mais astuto, pervertido e malandro que o Hulk infantil, representando a adolescência de Banner; o Professor Hulk, que é uma versão inteligente, controlada e egocêntrica do Hulk, que simboliza o começo da vida adulta de Banner, quando este ainda estava animado e confiante com sua carreira de cientista. Outras personalidades foram surgindo, como o Cicatriz Verde e o Hulk Demônio, que não possuem uma origem definida dentro de Banner, mas possuem cada um uma personalidade própria. O próprio Bruce Banner, quando não transformado, é uma personalidade. É o cientista tímido e sofrido, que não consegue sucesso em sua carreira porque carrega dentro de si uma criatura que pode destruir mais rápido do que ele pode construir.

Originalmente, o monstro era cinza. Um erro gráfico transformou-o no hoje famoso verde.
Sigmund Freud, famoso psicanalista, por exemplo, é uma ótima ferramenta para analisar o personagem. Uma análise freudiana diria, por exemplo, que as diversas representações do Hulk são o id de Banner, o seu inconsciente que não vem a tona, que representa estímulos diferentes do ego, que seria o Bruce Banner, a personalidade externalizada para o mundo. Os estímulos do id são geralmente ligados à estímulos de prazer ou primitivos, que compõem o inconsciente do indivíduo. Por isso, o Hulk, e suas diferentes encarnações, seriam as diversas manifestações negativas adormecidas, que o ego Banner dão deixa vir à tona. A bomba gama teria acordado o id de Banner, deixando a raiva, a frustração e o ódio tomarem o lugar da personalidade de Bruce. Há um ponto de intersecção entre o ego e o id, mas no caso de Banner e Hulk, o sentimento que eles compartilham é o ódio. Banner odeia o Hulk por acabar com sua vida, tornando-o um fugitivo do governo e por destruir toda sua carreira. Os Hulks, por outro lado, odeiam Banner, por considerá-lo “fracote”, covarde e por tê-los deixado aprisionados por tanto tempo.
Esse ódio é uma influência da literatura também. Em “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson, o Dr. Jekyll ingere uma poção capaz de separar a dualidade humana entre boa e má. Surge o Sr. Hyde, um homem que são todos os aspectos negativos e suprimidos de Jekyll. Se no começo havia um acordo entre ambas as personalidades, ao longo do romance, ambas começam a lutar pelo controle do corpo, gerando um ódio recíproco, porque um não suporta o defeito do outro e não quer dividir a existência. É a mesmíssima relação de Banner e Hulk: ambos querem o controle do corpo e ambos se odeiam, porque o Hulk é uma fera descontrolada que só trará destruição e Banner por ser fracote demais para enfrentar os perigos. A obra de Stevenson já foi dita como uma inspiração para a criação do personagem.
Outra inspiração literária é “Frankenstein”, de Mary Shelley. Na obra, o doutor Victor Frankenstein, buscando o segredo da vida, cria um monstro feito da parte outros homens. Mas a aparência horrenda, e o suposto pecado da criação, faz Frankenstein criar ódio pela sua criação. E também, o monstro o odeia de volta, por tê-lo feito de maneira que nenhum outro ser o poderia amar ou viver junto. No caso do personagem da Marvel, o Hulk é uma criação da mente conturbada de Banner, e como sua criação, também existe um ódio em relação à criação e o criador. Cabe notar que tanto na obra de Stevenson quanto de Shelley, há dois cientistas, homens de suposto grande valor na sociedade, e dois monstros, criações que são a perdição de ambos os cientistas. Hulk é a perdição de Banner, sua criação mais odiada e sua criação que o tornará mais famoso do que qualquer invenção que ele poderia ter criado.

Os primeiros visuais do personagem tinham uma clara inspiração visual nas obras de Shelley e Stevenson.
Por fim, Quasimodo, o personagem de “Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo, também serve como uma última inspiração para a análise. Devido às suas deformações, Quasimodo é um pária para a sociedade, e deve viver em isolamento, na citada catedral francesa. E Quasimodo compartilha com Hulk o papel de monstro incompreendido, que só buscava afeição, enquanto recebia medo e ódio. A supracitada fala de Hulk, “Deixe o Hulk sozinho”, pode ser lida como um choro de solidão, que poderia ser contornado com afeição e amor.
Um produto da bipolaridade de seu tempo e um aviso
O Incrível Hulk foi criado em 1962, em um dos momentos mais tensos da Guerra Fria, embate ideológico entre Estados Unidos e União Soviética. Nesse período, muitos quadrinhos da Marvel, como aqueles do Homem de Ferro e do Capitão América, serviam como propaganda anti-comunista para os jovens cidadãos estadunidenses. O Hulk entra nessa propaganda, mas de uma maneira diferente.
Lembra daquele militar que se recusou a apertar o botão e impedir a eclosão da bomba de raios gama? Na verdade, era um espião soviético, que buscava os segredos da nova arma criada pelo exército estadunidense, e com a suposta morte de Banner, poderia dar mais tempo para a União Soviética criar sua própria bomba. Por esse aspecto, não é exagero dizer que, caso não houvesse a corrida armamentista entre as duas potências da época, o Hulk poderia ainda estar trancado dentro da mente de Banner. Ninguém sabe por quanto tempo, mas a Guerra Fria tem sua parcela de culpa na eclosão do Hulk.
O personagem também serve como crítica ao conflito. A corrida armamentista foi um dos principais fatores que incentivaram Banner e o exército a construírem uma nova arma. Uma arma capaz de superar as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. O Hulk pode ser uma crítica a essa busca por armamentos que podem destruir a humanidade. Dotado de uma força sem limites, é uma alegoria dos perigos nucleares e armamentistas que causaram tensão durante a Guerra Fria. Enquanto os Estados Unidos e a União Soviética aumentavam seu arsenal de ogivas nucleares- um claro exemplo do dilema da segurança -, o Hulk servia como aviso: uma dessas armas poderia voltar contra seus criadores, e poderia tem um potencial destrutivo capaz de acabar com o mundo. Uma curiosidade: no mesmo ano de sua criação, 1962, também ocorreu a Crise dos Mísseis de Cuba, episódio marcado pela imensa tensão e a quase eclosão da guerra nuclear entre as duas potências, devido às posições de mísseis. Pouco meses antes, o Hulk já era um aviso para um eventual desfecho para esse episódio.
Nessa mesma linha de pensamento, o Hulk poderia ser um aviso da própria natureza. Se os humanos não param de aumentar seu potencial de destruição, a natureza mandaria uma “força” de resposta, maior que qualquer arma, capaz de aterrorizar a raça humana e sua irresponsabilidade. O Hulk seria uma força da natureza, buscando vingança contra a humanidade, por destruírem seu próprio planeta, seus recursos e por criarem armas capaz de aniquilação total de sua própria raça.
Conclusão
Não podemos nos esquecer que ainda estamos falando da Marvel e de um de seus maiores heróis. Quando confrontado por algum ser maldoso, o Hulk mostra sua faceta heroica, combatendo vilões e ameaças em prol do bem da sociedade (ironicamente, na grande maioria das vezes é nos Estados Unidos, onde o Hulk destrói e serve de aviso para a corrida armamentista). Inclusive, Banner e Hulk, em algumas ocasiões, chegaram a acordos para dividir o corpo, visando o bem maior e a mostrar que são heróis no mesmo patamar que os outros nomes da Marvel. Há um heroísmo claro no Hulk, por mais que seu pavio seja curto, e os danos colaterais podem ser desastrosos. Mesmo que as inspirações literárias para o personagem sejam obras que querem mostrar a dualidade entre o bem e o mal, no final, o Hulk foge desses limites para mostrar seu heroísmo.
Mas, o importante foi destrinchar um personagem que, às vezes, pode ser lido como simplório e raso. Um personagem que apenas simboliza a raiva e a força. Sim o Hulk é um símbolo de ambas, mas também simboliza o trauma, a frágil mente humana e os perigos da humanidade e suas criações. Ao olhar outra vez o personagem, lembre-se que está olhando para uma complexa rede de personalidades, conflitivas muitas vezes, capazes de destruir a mente do pobre Bruce Banner. De fato, um herói com um potencial analítico muito maior do que aquele muitas vezes vendido pelos filmes.

Críticas à Guerra Fria, inspirações na literatura do século XIX e uma aula de psicanálise. Além do monstro ridiculamente forte, está um dos personagens mais interessantes de toda a Marvel.







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