Obras para momentos difíceis
- Gabriel Chilio Jordão
- 12 de dez. de 2019
- 8 min de leitura

Acontece. É normal. Chega aquele dia em que as coisas não acontecem, em que você perde a vontade. Parece que ficar sozinho no seu canto é a única opção minimamente viável. As pessoas são cruéis, não entendem que simplesmente não vai rolar hoje.
Em momentos como esses, em que é difícil encontrar alguém (ou qualquer coisa) em que se apoiar, uma ajuda (nunca uma solução, só uma ajuda) pode estar no entretenimento que você consome. Um herói se levantando e indo valentemente à luta quando tudo parece perdido. Um cara ou uma moça que simplesmente não desiste. Ou um olhar mais sensível, talvez: algo mais introspectivo e reflexivo, que fará você se conectar com o personagem em questão, sentir suas dores em você.
Reforço desde que que começamos o blog que a cultura pop tem um poder transformador que muitas pessoas nem sequer imaginam. Suas histórias nos inspiram, nos fazem pensar. Nos fazem querer ser o melhor que podemos ser.
As obras que vou falar abaixo foram obras que me ajudaram num nível muito pessoal quando as coisas apertaram. A lista é profundamente subjetiva, mas falo os motivos pelos quais conseguiram me ajudar. Além de estar te recomendando um entretenimento do mais alto nível, quem sabe você não encontra aqui justamente o que está procurando?
Como disse, essas obras foram escolhidas baseadas única e exclusivamente na minha experiência com elas. Tenho certeza, no entanto, que são ótimas indicações para quem está precisando.
Se uma única pessoa ler esse texto, ficar interessada em uma das obras e ela ajudá-la a superar um momento difícil, tudo isso já terá valido a pena.
BoJack Horseman

A melhor série sobre a qual ninguém está falando. Um drama extremamente intenso e sensível disfarçado de uma comédia que, quando acerta, é simplesmente hilária (e ela acerta na maioria das vezes). Muito mais do que uma série animada, uma sessão de terapia.
A premissa para BoJack Horseman é igualmente criativa e absurda. Nesse universo, repleto de sátiras e críticas das mais ácidas possíveis ao nosso, humanos convivem com animais antropomórficos. A estrela aqui é quem dá nome ao seriado, um homem/cavalo (cavalo/homem?) que fez muito sucesso como ator na década de 1990, mas vive os dias de hoje em busca de algo que o tire do ostracismo.
Essa trama inicial sobre um astro em decadência disfarça o que essa série tem de melhor e mais brilhante. Lida com problemas como a depressão, solidão, vício e pensamentos negativos da forma mais fidedigna e honesta que eu já vi em todo o entretenimento. Não eufemiza nada, trata esses problemas como devem ser tratados.
A história do nosso querido BoJack é assustadoramente relacionável em diversos aspectos. É praticamente impossível não ver algo dos personagens principais em você ou não se emocionar com uma das MUITAS cenas de cortar o coração.
Se você sofre qualquer tipo de transtorno mental, ou mesmo com a solidão, e está à procura de algo que te ajude a lidar com isso, a entender com isso, a sua PRIMEIRA opção deve ser BoJack Horseman. Simplesmente uma das melhores séries de todos os tempos (não é um exagero, confiem). É criminoso não ter o reconhecimento que merece. Uma das melhores coisas já feitas para a televisão, e um dos personagens mais bem construídos e empáticos de toda a cultura pop, encontram-se em um desenho animado. Todos os mínimos detalhes são pensados,
Não me responsabilizo por eventuais crises de identidade e jornadas de auto-descobrimento. Eu avisei. Só, pelo amor da divindade em que acredita, assista BoJack Horseman. Faça-se esse favor.
Rocky: Um lutador

Esse é um um pouquinho mais famoso que o anterior. O que torna Rocky Balboa um personagem tão marcante é justamente o que dá título ao seu primeiro (e melhor) filme: ele é um lutador. O longa ganha contornos ainda mais emocionantes quando descobrimos o plano de fundo do então desconhecido Sylvester Stallone na época em que foi produzido.
O Garanhão Italiano nunca teve nada de bom na vida. Pobre, ganhava um pouquinho de dinheiro em um trabalho que não gostava e que não era digno (basicamente um homem forte de criminosos) e não tinha coragem e o mínimo de jeito para conversar com a garota que era apaixonado. Tinha no boxe sua única motivação para ser alguém na vida, mas mesmo assim era desmotivado para continuar lutando e não era o suficiente para pagar as contas.
Vivendo aos trancos e barrancos nos subúrbios da Filadélfia, nosso pugilista preferido conquistou o coração de tantos por aí justamente por não abrir mão daquilo que era importante para ele, e nunca, nunca, parar de lutar. Muitos gostam dos filmes apenas pelas cenas de pancadaria, e apesar disso ser completamente válido, é uma leitura infelizmente rasa.
As séries de surras e socos que Rocky leva no ringue simbolizam o quanto apanhou em sua vida, o quanto todos nós já apanhamos. E ele não desiste. As chances e todos os especialistas dizem que não tem como, mas ele não quer nem saber. ele só se levanta e continua batendo e apanhando. Uma hora vai dar certo. Tem que dar certo.
Como ele mesmo diria, muitos anos lá na frente: Não se trata do quão forte você pode bater, e sim do quão forte você aguenta ser atingido e seguir em frente. Palavras para uma vida inteira, vindas de um pobre rapaz da Filadélfia. Que todas as vezes em que ele se levantou depois de apanhar te inspirem a fazer o mesmo, não importa o tamanho do problema e da adversidade. Não se vence batendo, e sim suportando.
Cowboy Bebop

Conforme já dissemos aqui no blog, simplesmente uma das melhores animações japonesas de todos os tempos. Em grande parte responsável por popularizar o gênero no ocidente. Uma trama que mistura elementos de drama, comédia, terror, ficção, western e por aí vai, com uma trilha sonora tão estilosa e eclética quanto.
A história de Spike e companhia toca numa ferida que, para muitos de nós, é quase um tabu e impossível de se lidar: o passado. A grande chave para o desenrolar da trama de Cowboy Bebop está no passado dos nossos quatro personagens principais, ou mais especificamente como eles não conseguem entrar em acordo com ele.
Além de falar da nossa dificuldade em lidar com o que já foi (utilizando como fundo uma épica aventura de caçadores de recompensas no espaço sideral no ano de 2071), esse lendário anime é igualmente brilhante quando aborda como o passado nos deixa presos hoje: perdemos tanto tempo tentando provar que um dia estivemos vivos ou que as coisas foram um dia boas, que não conseguimos reconhecer o que ocorre na nossa frente. Novas relações, uma vida inteira que segue em frente, e não nos tocamos.
Eu sei como é difícil deixar ele ir embora, como ele ainda dói demais, como ele te traz memórias de um tempo e que tudo era muito melhor do que agora. A obra prima conhecida como Cowboy Bebop fala sobre tudo isso,e utilizando seu elenco absurdamente relacionável de personagens, nos ensina o que estamos perdendo quando ficamos parados no tempo.
Repito o que disse na nossa análise, sem medo de errar: um dos melhores produtos de entretenimento que já tive o prazer de consumir. Maduro, inteligente e tocante. Deem essa moral aos colegas japoneses, eles fizeram por merecer.
O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

Outra obra de arte, desta vez da literatura e posteriormente do cinema, que já teve sua análise feita aqui no blog. Poderia facilmente preencher um texto inteiro apenas com considerações e análises sobre a mitológica trilogia de J.R.R. Tolkien e como ela impactou permanentemente a cultura nerd e a literatura ocidental como um todo. Aqui, no entanto, vou me manter à conclusão da histórica saga.
Passamos dias e dias acompanhando o que parecia ser uma tarefa impossível de Frodo e a Sociedade do Anel. Vimos-os superarem batalhas épicas, monstros terríveis e exércitos inteiros. É impossível não se emocionar MUITO e não ficar completamente arrepiado com a marcha final de nossos heróis. De um lado, o retorno do legítimo rei de Gondor. Do outro, os últimos passos dos humildes hobbits rumo ao topo da tenebrosa Montanha da Perdição.
É quase inevitável não associar as dificuldades que nossos heróis enfrentam com as nossas próprias. Seus conflitos, em terras sagradas e contra criaturas místicas, traçam um paralelo com as batalhas que enfrentamos todo dia, com o que as pessoas que amamos têm de lidar. E eles, assim como nós, sempre encontram um jeito de se superarem.
Além disso, Senhor dos Anéis evoca em nós sentimentos que nos fazem sentir mais fortes: coragem, amizade, lealdade. Eles passaram por tudo aquilo, e passaram juntos. Eles (nós) vão (vamos) vencer. Tem (temos) que vencer.
E, por fim, O Retorno do Rei nos ensina que não nos ajoelhamos perante ninguém.
Não é apenas um livro/filme, jamais será.
Taxi Driver

Este é um filme para atingir em cheio nossos piores sentimentos de melancolia e solidão. Antes de mais nada, trata-se de um filme espetacular, com uma das melhores atuações (pessoalmente minha preferida) de um dos melhores atores de todos os tempos, produzido por um diretor que, apesar de estar falando algumas asneiras nos últimos tempos, possui filmes o suficiente no seu currículo para ter um certo passe livre para deixar escapar algumas bobagens.
O polêmico porém enorme sucesso Coringa bebe muito da fonte de Taxi Driver. Os dois, no entanto, têm uma clara distinção entre si, e é aí que acredito que more justamente o fator que torna o longa de Scorsese em um clássico do cinema e a película de Todd Phillips muito debatível. Prometo no futuro um texto aprofundando essa questão, pois acredito que seja riquíssima e que caiba um bom debate sobre. Para não fugir do assunto, vou deixar para falar sobre isso em um outro dia.
Travis, nosso taxista preferido, é claramente um sociopata. Seja pelas marcas de guerra, seja por alguma outra questão que não descobrimos, o homem tem problemas. Poucas coisas do que ele faz durante todo o filme são moralmente justificáveis. No fundo, no entanto, ele acredita que o que faz é certo, que suas ações tornam sua cidade um lugar melhor.
A solidão é algo muito perigoso. Afastar-se do mundo e das pessoas por ver isso como a única opção é facilmente visto como um caminho, mas não é o caminho ideal. Ao mesmo tempo em que Taxi Driver possui cenas que cumprem à risca o “Manual do Tímido e do Introvertido” e reflete o que muitos de nós sentimos, é uma clara demonstração dos riscos que estamos sofrendo ao não tentarmos ser melhores.
Adoramos Travis, mas é importante lembrar que nunca queríamos ser como ele.
Dragon Ball

Não poderia fazer uma lista de obras para ajudar em momentos duros sem falar da série que ensinou que os limites só existem porque nós os deixamos existirem. Assim como no caso de Rocky, é muito fácil fazer uma leitura superficial de Dragon Ball e achar que as lutas e os gritos resumem a franquia.
A maior lição que aprendi com Goku e seus amigos foi que vamos enfrentar desafios enormes na nossa vida, mas que o nosso maior inimigo sempre será nós mesmos. Não lutamos para superar os outros, lutamos para superar nossos próprios limites. E esses limites existem justamente para serem rompidos.
Goku não atingiu a lendária forma de Super Saiyajin porque gritou mesmo. O mesmo para seu filho Gohan. Todas as transformações (pelo menos, as que valem a pena assistir ou ler) são fruto de um longo processo de superação e conflito, que geralmente dura uma saga inteira.
Três das seis obras nessa lista ensinam o valor da luta como uma forma de superar o que quer que seja que está te segurando. E em nenhuma delas isso é tão forte quanto em Dragon Ball. Tenha tudo isso que escrevi em mente, e aposto que sua experiência com a franquia vai mudar completamente. As sessões de gritos farão muito mais sentido.







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