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Opinião - Demolidor e Jessica Jones caíram de pé

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 31 de jul. de 2019
  • 6 min de leitura

Quando a Marvel anunciou uma parceria com a Netflix para produzir quatro séries sobre personagens menos “poderosos”, o ceticismo tomou conta da opinião pública. Eram personagens desconhecidos do grande público, longe de estarem no escopo de algum dos Vingadores. A ideia era seguir a ordem “Demolidor”, “Jessica Jones”, “Luke Cage” e “Punho de Ferro”, terminando com “Os Defensores”, que reuniria os quatro (uma espécie de “Vingadores das ruas”).


O início avassalador

Em abril de 2015, a primeira temporada de Demolidor é lançada e choca o público. Realista e violenta, foge completamente dos padrões do MCU e impressiona pela sua qualidade. Charlie Cox, visto com desconfiança por não se parecer nem um pouco com o protagonista Matt Murdock, interpreta brilhantemente o Homem sem Medo, em uma performance memorável, que apagou da mente do público o desastre que foi o filme do Demolidor de 2003. Além de Cox, Vincent D’Onofrio é impecável como Wilson Fisk, o Rei do Crime. A série brilha e surpreende por ser capaz de contar uma história extremamente adulta e realista, não precisando de superpoderes para fazer a trama avançar.


O sucesso estrondoso de Demolidor aumenta as expectativas dos fãs para o que viria por aí. Em novembro do mesmo ano, Jessica Jones chega às telas. Apostando em uma história mais íntima e com menos enfoque na ação, a parceria Marvel/Netflix volta a se mostrar muito boa, mais uma vez com performances memoráveis da protagonista (Krysten Ritter) e do vilão (David Tennant como Kilgrave). As duas primeiras séries mostram que não é necessário poderes absurdos e tramas megalomaníacas para se contar boas histórias de super-heróis, e elevam o patamar do que se espera de produções do gênero.


Consolidada a confiança na Netflix para a produção dessas séries, a próxima seria a segunda temporada de Demolidor, em março de 2016 (o sucesso foi tanto que as duas séries foram renovadas). Inicialmente, a segunda temporada é fantástica, com os primeiros episódios mantendo o nível do primeiro ano, e em alguns casos, superando. A isso se deve a mais um tiro certeiro (trocadilho não intencional) na escalação de Jon Bernthal como Frank Castle, o Justiceiro. Os primeiros quatro episódios da temporada mesclam perfeitamente ótimas atuações, muito fanservice e uma trama mais uma vez muito interessante. A partir da segunda metade da temporada, no entanto, as coisas tomam um rumo até então inédito para as séries da Marvel. A tão esperada pelos fãs Elektra é introduzida, interpretada por Elodie Yung. É a partir de sua introdução, no entanto (não culpo apenas a atriz por isso), que o nível da série tem uma queda notável. O segundo arco não é nem de longe tão interessante quanto os anteriores, e a história de Matt e Elektra contra o Tentáculo falha em trazer a qualidade que marcou os arcos de Wilson Fisk e Frank Castle. Apesar do deslize, o segundo ano de Demolidor é visto como mais um sucesso e uma terceira temporada é encomendada.


O nível cai

Em setembro de 2016, Luke Cage é lançado, ainda com boas perspectivas. É na série estrelada por Mike Colter (mais um acerto), no entanto, que os problemas começam a aparecer. A primeira metade (com Mahershala Ali sendo o antagonista e brilhando no papel de Boca de Algodão) segue a tendência narrativa de Demolidor e Jessica Jones, com histórias mais centradas e nada muito exagerado. A partir do fim do arco de Ali, no entanto, a série piora drasticamente. O segundo vilão (Cascavel, interpretado por Erik LaRay Harvey) não é nem um pouco interessante. As reviravoltas na trama não ajudam, o roteiro segue direções que não das melhores (para dizer o mínimo) e o fim do primeiro ano de Luke Cage é fraco. A partir dessa perceptível queda de qualidade, o alerta é ligado para as futuras produções da parceria. Dentre as principais críticas, o modelo de 13 episódios (seguido à risca por todas até então) passa a ser questionado.


No terceiro ano do casamento Marvel/Netflix, Punho de Ferro é lançado em março de 2017, e é o primeiro grande fracasso das séries. Ruim e com um protagonista sem carisma nenhum (Finn Jones para o papel de Danny Rand foi um tremendo erro de escalação), a série deixa os fãs e o público no geral muito preocupados com o que viria pela frente.


A próxima no caminho era a tão aguardada reunião dos quatro heróis. Apesar de Cox, Ritter e Colter fazerem o seu melhor, Defensores, lançada em julho do mesmo ano, é uma tremenda decepção. Com um vilão fraquíssimo e pouca química entre os personagens (Finn Jones segue mal), traz a primeira “crise” do universo televisivo. Não só a qualidade cai drasticamente, como a audiência bate recordes negativos.


Uma palavra define: decepcionante.

O melancólico fim e a consolidação de duas

Ainda em 2017, uma série spin-off do Justiceiro é lançada em novembro, completamente distante do que ocorria nas outras produções. No geral, é um acerto, abordando temas interessantes e com Bernthal brilhando.


2018 chega, e é um ano onde o fim dessa jornada começa a ser traçado. Todas as séries (com exceção da recém-lançada Justiceiro) têm novas temporadas. Ignorando um pouco a ordem cronológica, os segundos anos de Luke Cage e Punho de Ferro não conseguem corrigir a maioria dos erros, e são as duas primeiras séries a serem oficialmente canceladas. Em março, o segundo ano de Jessica Jones estreia e, apesar de um vilão muito decepcionante, consegue manter alto o nível. É a partir desse momento que começa a se tornar claro que Demolidor e Jessica Jones são os grandes frutos do relacionamento Marvel/Netflix. No fim do ano, o último ano de Demolidor chega às telinhas (pouco depois da estreia, é anunciada que a série também seria cancelada), e ele é simplesmente fenomenal. Com o triunfante retorno de Wilson Fisk (que fez muita falta na segunda temporada), a espetacular atuação de Wilson Bethel como Agente Poindexter/Mercenário e uma releitura excelente de um dos melhores arcos do personagem nas HQs (“A Queda de Murdock”), a terceira temporada de Demolidor é uma obra-prima, conciliando memoráveis atuações, uma história concisa e atrativa e violência e temas adultos sendo usados sob medida. Em meio à desconfiança do público e a cancelamentos em massa, o terceiro ano do Homem sem Medo é a melhor de todas as séries até aqui, e fecha com chave de ouro a história de Charlie Cox e cia.


Em 2019, já sabemos que Justiceiro e Jessica Jones também foram cancelados; as temporadas seguintes (que já estavam sendo gravadas quando a guilhotina desceu) servem como despedidas dos personagens. O segundo ano de Frank Castle perde um pouco da qualidade do primeiro, mas no geral encerra-se como uma digna adaptação do personagem.


No dia 14 de junho de 2019, o universo televisivo da Marvel/Netflix chega oficialmente ao seu fim, com o lançamento da terceira e última temporada de Jessica Jones. Tematicamente muito diferente das outras séries, explorando muito mais uma história de detetive e de diálogos morais, Jessica Jones atinge, assim como Demolidor, o ápice em seu terceiro ano.


Conclusão: Matt e Jessica mereciam coisa melhor

Oficialmente encerrado esse ciclo de quatro anos, considerações podem ser feitas. Demolidor e Jessica Jones provam ser as melhores coisas que esse casamento pôde dar. Com um ano introdutório excelente, um segundo com alguns erros, mas com o nível ainda alto, e um terceiro e último ano com o melhor que as duas histórias ofereceram, fica a lamentação que essas duas grandes séries tiveram que sofrer por estarem ligadas a outras visivelmente mais fracas. A queda de rendimento das produções e a consequente falta de interesse do público infelizmente “escondeu” das pessoas as melhores temporadas de duas das melhores séries de super-heróis já feitas.


Apesar dos dois cancelamentos serem uma grande pena, deixam como legado duas obras fechadas e de altíssima qualidade. As histórias de Matt e Jessica são muito bem-feitas, com personagens coadjuvantes que em muito agregam, vilões memoráveis e tramas que não tem medo de abordar temas polêmicos e adultos, além de utilizarem de maneira correta e coerente a violência. Como fã das duas espero que continuem (com o mesmo elenco, claro) no serviço de streaming da Disney (apesar de considerar a possibilidade bem remota), mas se esse for mesmo o fim, é um muito satisfatório.


Fica o seguinte aprendizado desses quatro anos: ignore as outras séries da Marvel na Netflix, assista apenas Demolidor e Jessica Jones. São duas ótimas séries que sobreviveram como puderam em meio a paralelas fracas. Está nas histórias do advogado cego e da investigadora sarcástica o grande legado da parceria Marvel/Netflix, e é um que merece ser apreciado e respeitado.


Vencedores morais.

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