top of page

Análise – Cowboy Bebop: O relógio que parou de funcionar

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 11 de set. de 2019
  • 5 min de leitura

Os animes são mundialmente reconhecidos por possuírem personagens extremamente fortes e musculosos, histórias que envolvem poderes de destruir mundos e por aí vai. Não julgo nem critico. São elementos que caracterizaram séries de enorme popularidade e que se mantém adoradas por fãs ao redor do globo.

No outro lado do espectro, temos as séries mais contidas e “fofinhas” (?), como histórias de adolescentes no colegial e/ou monstrinhos lindos que nos ensinam o valor da vida.

O tema de hoje, no entanto, é um anime que foge completamente dos dois estereótipos. Com personagens “pés no chão” sem que seja necessário abandonar o exagero e uma história muito mais madura do que se normalmente vê, foi um dos principais responsáveis pela enorme popularização que o gênero tem até hoje no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos.

Lançado em 1998 e produzido pelo estúdio de animação Sunrise, hoje vamos falar de Cowboy Bebop.


Um grupo de completos desajustados

Começamos pela trama, que já é completamente diferente e original por si só. Estamos no ano de 2071. A Terra se tornou um lugar inabitável. A humanidade passa a viver em planetas como Marte e Vênus, e até mesmo em luas de outros planetas do nosso Sistema Solar. Os planetas (agora no plural) viraram pontos de miséria e abandono, e o crime passa a rolar solto. A incapacidade da força policial (que agora é espacial) de conter todos os delinquentes faz surgir no espaço sideral caçadores de recompensas, que alegremente colocam suas vidas em risco para ganharem um mísero dinheirinho.

É nesse cenário de discórdia total pela galáxia que passamos a acompanhar as desventuras de Spike Spiegel e Jet Black, uma dupla de caçadores de recompensas que viaja pelo espaço abordo da Bebop, uma enorme nave. Spike possui uma relação não resolvida com um sindicato criminoso, e Jet é um ex-policial. Eventualmente juntam-se ao bando o simpático corgi Ein, um cachorro que supostamente é tão inteligente quanto um ser humano; Faye Valentine, uma sedutora golpista que não tem a menor ideia do seu passado e Ed, uma jovem hacker que provavelmente só se juntou à equipe para se divertir.

Inicialmente, nenhum dos membros parece ser relacionável. Na maioria de suas ações, aparentam ser egoístas egocêntricos que não pensariam duas vezes antes de traírem alguém para conseguir o que querem. Essa é uma das primeiras (e certamente uma das mais marcantes) mágicas de Cowboy Bebop: um grupo de imbecis que inicialmente compartilham um mútuo desgosto um pelo outro que aos poucos cria empatia com o espectador, mostrando o que existe por baixo daquelas aparências de durões e lentamente formando laços uns com os outros, tornando-se o único resquício de família que qualquer um deles já teve na vida, além de servir como companhia e protagonistas para nós nessa jornada por um espaço que na maioria das vezes parece solitário e pouco acolhedor.


A tripulação mais problemática da galáxia.

Parados no tempo

É no desenrolar da história de Spike e cia que Cowboy Bebop mostra como sua trama é adulta e madura. Para começar, não temos enormes cenas de flashbacks para que se explique direitinho e linearmente o passado de nossos personagens e como chegaram onde estão. Apenas quando é conveniente para que a história não fique confusa é que recebemos (e ainda poucos relances, com exceção de uma personagem) informações sobre quem essas pessoas realmente são. Na minha opinião, a escolha é genial. Não se perde tempo com enormes e tediosas sequências de eventos passados e adiciona ainda mais para o clima de mistério que ronda nossos protagonistas.

É justamente na forma como lida com o passado de seus personagens que acredito que Cowboy Bebop está no seu mais brilhante. No decorrer dos 26 episódios do anime, vamos aos poucos percebendo que todos os personagens têm pontas soltas com eventos de seus respectivos passados, e inevitavelmente o passado cobra. São exatamente nos episódios em que as relações com o passado são acertadas (ou quase isso) que temos alguns dos momentos mais incríveis desse anime que já possui praticamente zero defeitos.

Em vez ser uma épica ópera espacial ou uma série de ação com tiroteios empolgantes (não que não exista espaço para isso, porque certamente há), Cowboy Bebop resume-se à história de três adultos que não conseguiram se desvencilharem do seu passado por situações mal resolvidas, e como resultado estão parados no tempo. Passam seus dias completamente alheios aos mundos que os cercam, falham em perceber como a vida de todos eles continuou e recusam-se a seguir em frente.

Mais do que uma grande e belíssima história sobre catarse, amizade e laços, Cowboy Bebop é uma grande lição para todos nós: quanto mais tempo deixarmos nossos erros do passado nos corroerem, menos tempo teremos para viver o presente e, consequentemente, valorizar os novos laços formados.


Seguir em frente é difícil para todos nós.

O apelo para o Ocidente

Colocando de lado os personagens marcantes, a história absurdamente relacionável e bem-feita e os visuais e estilo fora de série (sim, colocando de lado tudo isso), Cowboy Bebop ainda encontra espaço para fazer homenagens à cultura ocidental e, com isso, facilitar muito a travessia do anime para terras americanas. O aspecto mais óbvio é a trilha sonora: em vez de músicas tradicionalmente japonesas, o anime conta com uma seleção dos mais variados estilos, todos mais difundidos nos Estados Unidos: jazz, blues e até mesmo um pouquinho de rock ‘n roll. Além dos sons e da trilha, referências à aspectos da própria cultura pop ocidental existem. Um episódio inteiro é uma referência/homenagem ao clássico “Alien: O Oitavo Passageiro”, para que se tenha um exemplo.

Ultimamente, o estilo de Cowboy Bebop é um dos maiores responsáveis para que o anime fosse um absoluto sucesso nos Estados Unidos, e ajudasse o país a se tornar um dos maiores consumidores de animações japonesas no mundo.


Quem venceria?

Você está vivendo no mundo real?

O texto faz parecer que Cowboy Bebop é uma das melhores coisas a ter saído do Japão. Apesar de ser muito fã de Playstation e não negar um miojo aqui ou ali, tenho a consciência tranquila quando digo que Cowboy Bebop é o melhor anime de todos os tempos. E isso é dizer alguma coisa.

Dono de uma das melhores trilhas sonoras e protagonista do gênero, sabendo a hora de não se levar a sério e mesmo assim sendo capaz de produzir momentos verdadeiramente tocantes e misturando os mais variados gêneros (como western, ópera espacial, noir e até mesmo terror), Cowboy Bebop simboliza para mim o ápice do que uma forma de entretenimento pode atingir: uma experiência de mudar a sua vida e te fazer pensar (e repensar) muitas decisões que está tomando. Marcante e estiloso até o último enquadramento, é uma recomendação minha para literalmente qualquer um em busca de uma boa história. Quem sabe você não tem a mesma sorte que eu e assiste na hora em que deveria assistir, quando a sua vida parece estagnada e sem rumo?

Infelizmente, no entanto, cabe a mim o papel de dar um pequeno spoiler: nos seus momentos mais intensos, Cowboy Bebop é extremamente melancólico e digno de arrancar algumas boas lágrimas. Como um bom blues deve ser.

Perfeito. Sem muito mais o que dizer. Uma obra-prima. Assistam. Se já assistiram, assistam de novo. Vale a pena.



Comentários


© 2019 Por Salão da Justiça

bottom of page