top of page

Opinião – Cabeça da Inquisição em um nerd do Século XXI

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 9 de set. de 2019
  • 2 min de leitura

ATENÇÃO: O texto a seguir contém cenas de pornografia e violação da moral da família tradicional brasileira. Leia por sua conta e risco.

São tempos complicados. Coisas tão óbvias tem que ser ditas e reforçadas, em meio a um marasmo de intolerância e ódio.


Durante a última Bienal do Livro, realizada no Rio de Janeiro, o prefeito da capital fluminense Marcelo Crivella (PRB) ordenou que todas as cópias da HQ “Vingadores: Cruzada das Crianças” fossem confiscadas e lacradas por “conterem conteúdo pornográfico e impróprio para menores de idade”. Sob o pretexto de “proteger nossos jovens”, o político descaradamente solicitou que o quadrinho fosse censurado. O motivo? Em um livro com mais de 200 páginas, uma página mostra um beijo homoafetivo entre os personagens Hulkling e Wiccano.


O tiro saiu pela culatra. Todas as edições da HQ rapidamente se esgotaram e a gigantesca maioria da opinião pública se voltou contra Crivella (que deve estar administrando uma cidade tranquila e com poucos problemas a serem resolvidos, fazendo um beijo gay ser a maior de suas preocupações. Mas posso estar errado). Não satisfeito com a decisão completamente estúpida e sem cabimento, o prefeito voltou a ordenar que seus fiscais voltassem ao evento, dessa vez com ordens para procurar e confiscar quaisquer livros que possuíssem temáticas LGBT. Mais uma vez, o público presente deu um banho de humanidade, esgotando todos os livros.


Qualquer tipo de censura é completamente inaceitável. Ainda dentro desse espectro, mais absurdo ainda talvez seja querer censurar uma simples exibição de amor que fuja da heteronormatividade. Não foi nem uma cena de sexo, foi um simples beijo. Atitudes desse nível não possuem o menor cabimento (nunca possuíram, mas agora estão acompanhadas pelo espectro legal), e ver figuras públicas (sim, no plural) proliferando esse tipo de comportamento nos faz pensar onde foi que erramos.


Está na própria magia e no cerne de ser nerd ser revolucionário, ser contra autoritarismos e desigualdades. Fomos historicamente oprimidos e considerados párias na sociedade; não é porque agora estamos no centro das produções da indústria cultural que devemos abandonar o que sempre nos diferenciou. É justamente nesse momento que devemos demonstrar todo nosso apoio aos que querem entrar ao nosso mundo. Sentimos na pele o que é ser excluído, não é justo que façamos o mesmo, ainda mais por crimes (como a homofobia).


Cabe a todos nós, nerds ferrenhos ou não, ter o mínimo de análise crítica do entretenimento que estamos consumindo. Faz sentido amar Star Wars e apoiar governos autoritários? Faz sentido amar os X-Men e ser homofóbico, racista? Vejo que não. Duas possibilidades: ou não tem a mínima noção da mensagem que está sendo passada nessas obras, ou não é tão fã como diz ou se imagina ser. Se ver um simples beijo entre dois homens em uma história em quadrinhos te tira tanto do sério, talvez exista uma verdade difícil de admitir escondida por aí.


Isto é apenas um blog feito para falar sobre as vertentes da cultura pop que amamos. Mas posicionar-se contra a normatização do preconceito no Brasil é algo necessário para pessoas como nós. Estudantes. Nerds. Seres humanos.


E por último, não menos importante: Censura NÃO.

Comentários


© 2019 Por Salão da Justiça

bottom of page