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Crítica – O Farol (2020)

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 9 de jan. de 2020
  • 4 min de leitura

O descenso à loucura em seu mais estiloso.


Uma premissa relativamente simples: no século XIX, supostamente no norte dos Estados Unidos ou até mesmo no Canadá, um jovem trabalhador sem muito sucesso na vida resolve tentar a sorte como assistente de um faroleiro, em uma ilha muito distante da civilização e de terra firme. Uma execução monstruosa, que transforma essa premissa sem grandes complicações em uma das experiências cinematográficas mais intensas e horripilantes dos últimos anos.

Turbinado por atuações inacreditáveis de suas duas estrelas, uma fotografia invejável e um clima de suspense do primeiro ao último enquadramento, O Farol, novo filme do promissor diretor Robert Eggers (de apenas 36 anos), cria uma história aterrorizante e espetacular sem em momento algum precisar se render aos clichês do gênero.

A solidão e a insanidade

Robert Pattinson e Willem Dafoe dão uma verdadeira aula de atuação.

O principal acerto no filme encontra-se na química (na grande maioria das vezes de tensão) entre os dois protagonistas (e basicamente os únicos personagens do filme): Ephraim Wilson (Robert Pattinson) e Thomas Wake (Willem Dafoe). A solidão e o isolamento causados pela estadia no distante e pavoroso farol transforma não só a relação entre os dois mas suas próprias sanidades. Segredos sobre o local e sobre nossos faroleiros são revelados (ainda que nunca explicitamente, outro enorme acerto), e à medida em que a verdade sobre seus passados e sobre o que aconteceu naquela macabra rocha são revelados, só aumenta a tensão e o crescente pensamento de que algo muito macabro está para acontecer.

Sem detalhar em grandes detalhes os fatores responsáveis, a estadia dos dois na ilha acaba se prolongando, e a aura lá presente leva nossos dois personagens a uma interminável espiral de enlouquecimento e dúvidas sobre a própria realidade, sentimentos esses que são passados ao próprio espectador. Em determinados momentos, mais próximos ao clímax, torna-se muito difícil separar o que é realidade e o que é apenas uma ilusão da danificada consciência de nossos faroleiros. Em um filme com uma atmosfera tenebrosa, ambientado em um local que claramente esconde algo sinistro, é justamente nos diálogos entre os personagens, suas relações com os sentimentos de solidão e a inevitável queda à loucura que o filme é mais impecável. Dois simples homens que se transformam em dois monstros completamente desprovidos de razão, em duas atuações magistrais.

Momentos de tensão

O medo e a incerteza sobre o que está acontecendo estão presentes no filme inteiro.

Apesar de contar com muitos momentos de suspense, O Farol é um terror psicológico. Nos momentos de maior tensão, aflição e medo do filme, é comum vermos aparições que parecem sobrenaturais, e questionarmos se aquilo está acontecendo ou não.

Desde a chegada de Ephraim à ilha, em uma noite de forte tempestade, o clima é de apreensão absoluta. Um silêncio incômodo nos deixa sempre com um tremendo frio na espinha, e a inevitável sensação de que algo muito sombrio está acontecendo naquele farol. Não há um único momento “tranquilo” no filme, em todos os momentos paira uma aura sombria, sinalizando que algo vai acontecer a qualquer momento. Novamente, não estragando o filme, não é sempre que essa expectativa se cumpre, mas o simples fato de ela existir em todas as cenas contribui muito para o clima aterrorizante do longa.

Dois fatores que ontribuem muito aqui: o canadense Mark Korven, responsável pela trilha sonora. As músicas tocadas durante o filme são tão incômodas quanto ele em si, e arrepiantes. O outro é o próprio diretor Robert Eggers, que cria uma sensação de horror (que deixaria H.P. Lovecraft orgulhoso) sem precisar de clichês, como sustos baratos. Os famosos jumpscares não são encontrados em momento nenhum aqui, mas isso não torna a experiência menos horripilante. Muito pelo contrário. Trata-se de um terror maduro, que sabe como deixar seu público assustado sem utilizar truques batidos.

A luz

Quase um personagem, a luz emitida do farol é fundamental para o desenrolar da trama.

Grande parte da trama está centrada na própria figura do farol, mais especificamente na luz emitida por ele, a ponto em que ele se torna praticamente um personagem da história, a única entidade capaz de produzir luz em um escuro e sombrio local.

Um importante ponto da história é o fascínio de Thomas pela luz emitida do farol. Essa paixão aparentemente sem muito sentido motiva Ephraim a querer entender o que existe de tão especial lá dentro. Seus pedidos são sempre recusados, e tratados como sinal de desobediência pelo faroleiro mais experiente. Isso cria uma inevitável sensação e teorias sobre o que de fato existe lá dentro, alavancadas pelas poucas e macabras coisas que conseguimos ver, sempre de relance e pelo ponto de vista do recém-chegado faroleiro.

A tensão sobre o que de errado dentro da ilha se liga quase que naturalmente com o que de tão precioso se esconde dentro do farol, só adicionando para o clima de mistério e incerteza que ronda o filme inteiro. Novamente não querendo estragar a experiência, digo apenas que o que realmente se esconde dentro do farol é sintomático do processo de enlouquecimento pelo qual passam os personagens. Dou uma pequena dica, no entanto: esteja com seu conhecimento de Mitologia Grega em dia.

Veredito final

O Farol foi uma das experiências mais intensas e incríveis que tive o prazer de ter dentro do cinema nos últimos anos. Duas atuações inesquecíveis conduzem uma trama repleta de mistérios, descobertas e incertezas. O modo como ele retrata o desgaste da condição humana frente ao isolamento é algo que nunca vi parecido. O terror psicológico em seu primor, para deixar os espectadores em estado de choque e pensativos após seu fim.

Claustrofóbico e extremamente bem dirigido, O Farol é um filme para levantar mais e mais discussões sobre seus significados, e sobre sua absurda qualidade. Cinema para se pensar, e, mais importante, se apreciar. Uma obra-prima.

10/10

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