Crítica - Jessica Jones, terceira temporada (2019)
- Gabriel Chilio Jordão
- 26 de jul. de 2019
- 4 min de leitura

Dentre todas as séries da Marvel na Netflix (que, com a terceira temporada de Jessica Jones, chegam ao seu fim), a que menos abordou a questão de superpoderes, em detrimento de temas mais complexos, foi sem dúvida Jessica Jones. A protagonista é uma mulher com super-força, mas isso não é um ponto central em nenhuma das três temporadas. Demolidor é a série que tematicamente mais se aproxima da estrelada por Krysten Ritter, com as duas abraçando com certa frequência temas sombrios e mais violentos.
Lançada em 14 de junho, a derradeira temporada de Jessica Jones aposta em um lado mais sombrio do que as antecessoras, e com muito mais violência. Além de Jessica, os coadjuvantes têm seu tempo de desenvolvimento (em alguns casos, infelizmente diminuindo o ritmo da trama), o vilão é interessante (um dos pontos fracos da segunda temporada) e a história tem suas reviravoltas. No geral, é uma despedida digna para a personagem, recuperando a qualidade da série (que deixou a desejar em seu segundo ano) e com um final satisfatório, mesmo que com alguns deslizes ao longo do caminho.
Recolhendo os cacos em meio ao caos
A trama da terceira temporada parte de Jessica mantendo a vida como nos acostumamos, com muita bebida e mau-humor. Inicialmente, a história conta paralelamente os arcos de seus personagens principais, separados por rusgas na segunda temporada, cujos acontecimentos continuam frescos na cabeça de nossa heroína. O que parecia ser apenas mais uma relação sexual descompromissada (como também nos acostumamos) de Jessica com um rapaz que conhece no bar transforma-se em uma caça a um assassino em série. A nova “ameaça” mostrou-se um jeito interessante de fazer os personagens se verem obrigados a acertarem as contas para resolverem o problema. Destaque para Trish (Rachael Taylor), que após receber poderes ao final do segundo ano da série, começa a tentar a vida de vigilante mascarado. O contraste entre Jessica e Trish é um dos pontos altos da temporada, com uma inicial animosidade (ainda por questões mal resolvidas da segunda temporada) transformando-se em discordâncias ideológicas.
Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss) brilha no terceiro ano como nunca na série, com sua doença levando-a ao limite e fazendo-a ser uma das principais articuladoras da história. O ponto negativo fica em Malcom (Eka Darkville), que pouco se desenvolve durante seu arco, sendo em alguns momentos o ponto de desaceleração de uma trama no geral bem concisa, além de subtramas não muito interessantes envolvendo-o.

Mais investigação, menos porradaria
Fãs de séries como Demolidor (ou até mesmo das temporadas anteriores de Jessica Jones) podem se decepcionar pela falta de cenas de combate e ação, mas essas foram substituídas por uma história que exige mais do lado detetive de Jessica, colocando de lado (conforme possível) a questão dos poderes. O trabalho de apuração e investigação predomina aqui, e apesar de ser uma mudança em relação ao que já vimos, combina para a história que quer ser contada.
O terceiro ano atinge seu ponto mais alto a partir da segunda metade dos episódios, com revelações que apimentam a trama sendo feitas e a imprevisibilidade tomando conta (a primeira metade se arrasta em alguns momentos, com subtramas desinteressantes e/ou que não levam a nada). O fato de sabermos que essa será a temporada final é até certo ponto muito bom para a trama, com o destino de muitos personagens sendo completamente incerto. Isso traz um ar de expectativa que faltou às outras séries da Marvel, por sempre sabermos que haveria uma continuação. A história é tensa, e a construção de revelações e a caça ao vilão da vez possui um ritmo muito bom, mantendo e elevando gradativamente a apreensão do espectador. De todas as séries da Marvel, é a que mais se aproxima do suspense, pelo caminho escolhido para contar a história.
Caras novas
A terceira temporada introduz personagens que em muito agregam a trama, cada um de seu jeito. Temos Kith (Sarita Choudhury), interesse amoroso de Jeri na época da faculdade, que surge na história para acrescentar ainda mais profundidade ao arco da advogada; além dela, temos Gillian (Aneesh Sheth), secretária de Jessica. Essa última é um acerto em cheio na questão da representatividade, sendo a primeira personagem transgênero em uma série da Marvel (historicamente, a série lidou muito bem com a questão, com personagens importantes para a história sendo de diversas etnias e orientações sexuais).
Os destaques, no entanto, ficam para Erik (Benjamin Walker), um sedutor golpista, cuja entrada no mundo de Jessica é o ponto de partida para o grande conflito da temporada, e Gregory Salinger (Jeremy Bobb), um brilhante assassino em série. A série se redime do decepcionante vilão da segunda temporada; Salinger mostra-se uma adversidade diferente de todas aquelas que vimos Jessica enfrentar, usando a astúcia mais do que qualquer coisa para superá-la, com o personagem sendo sempre uma presença desconfortante e até mesmo assustadora em alguns pontos.

O tal do heroísmo
Uma das características marcantes de Jessica ao longo desses anos é como ela refuta prontamente qualquer “acusação” de heroísmo em suas ações, e rejeita ser chamada de heroína. A temporada traz uma reviravolta interessante a esse aspecto, com as ações de vigilante de Trish colocando em debate questões vistas antes apenas na dualidade Matt Murdock x Frank Castle, na segunda temporada de Demolidor. O fato de termos até então apenas Jessica como pilar do que considerávamos “bom” traz um choque muito necessário à série.
Os desentendimentos morais entre Jessica e Trish apresentam-se como o segundo grande conflito da temporada, e crescem conforme o arco de Salinger avança até um ponto onde os dois problemas (um assassino em série e uma melhor amiga impiedosa no combate ao crime) tornam-se igualmente atrativos.
Veredito final
A terceira e última temporada de Jessica Jones não será atrativa para os que estão esperando algo na mesma pegada da temporada final de Demolidor. A história avança conforme as habilidades investigativas de Jessica permitem e reviravoltas com os coadjuvantes acontecem. Apesar de alguns deslizes na condução narrativa e alguns personagens mal aproveitados, o final da história de Jessica é muito interessante, com questões inéditas à série sendo colocadas em debate, um vilão bem feito e uma trama muito mais sombria e tensa do que nas outras temporadas. Certamente espero que não seja a última vez que vejamos a personagem tão brilhantemente interpretada por Krysten Ritter, mas se esse realmente for o adeus, é um muito digno, e um satisfatório fechamento para a história dessa problemática investigadora particular.
9/10







Comentários