Crítica - Era uma vez em... Hollywood (2019)
- Gabriel Chilio Jordão
- 26 de ago. de 2019
- 4 min de leitura

Poucos diretores no cinema de hoje são capazes de atraírem uma quantidade boa de público aos seus filmes simplesmente por serem cineastas consagrados (faça o exercício: quantos dos últimos filmes que você viu no cinema foram por causa do diretor?) como o americano Quentin Tarantino. Dono de um currículo invejável, com clássicos como Pulp Fiction, Bastardos Inglórios e Django Livre, a mais nova produção do diretor é uma análise aprofundada de um turbulento ano do cinema norte-americano, e ao mesmo tempo uma recontagem e uma homenagem de uma atriz que deixou a sétima arte muito cedo.
Na sua mais nova película, “Era uma vez em... Hollywood”, Tarantino faz uma carta de amor à cidade onde cresceu, e conta uma história muito mais particular do que normalmente faz, alavancada por atuações memoráveis de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt.

A cidade dos anjos
Não se engane: o filme não é sobre a seita de Charles Manson. Ela certamente está presente, mas não é em momento algum o ponto principal da trama. Apesar de se passar no mesmo ano dos casos de Manson (1969), o foco está na própria cidade de Los Angeles, mais especificamente Hollywood. Vemos a cidade por três pontos de vista: Rick Dalton (DiCaprio), um ator de filmes de ação em decadência que busca um papel para ressurgir, Cliff Booth (Pitt), o dublê há mais de nove anos de Dalton e Sharon Tate (Margot Robbie), uma jovem atriz em ascensão.
Ainda que tenhamos os três protagonistas conduzindo a narrativa, Hollywood ocupa um papel central na trama. Tarantino faz uma carta de amor e uma homenagem à sua infância, cuja maioria foi passada no célebre distrito. Pense nesse filme (salvas algumas claras diferenças) como o Roma de Tarantino. Uma história baseada no lugar onde cresceu e se formou como pessoa. As referências e menções ao cinema da época são sempre presentes, mostrando como o cineasta é apaixonado pela sétima arte e como tem pleno conhecimento de sua história.
O filme se distancia muito das outras produções de Tarantino. Algumas de suas marcas estão sim presentes (como o bom humor para explicar elementos da história, eventuais quebras da quarta parede e cenas estupidamente violentas. A última bem menos, mas guardada para um momento especial), mas o espectador pode sim se surpreender. Méritos de Tarantino, que faz um filme completamente diferente do que acostumou os fãs e ainda brilha muito.

As estrelas brilham
Além da estética dos anos 60 e a trilha sonora (ótima!) correspondente, merecem elogios as atuações do trio principal. Apesar de Margot Robbie estar excelente no papel de uma jovem Sharon Tate, com toda a inocência e delicadeza necessárias, vejo que o brilhantismo está mais evidente nos mais experientes Brad Pitt e Leonardo DiCaprio. Na minha opinião, duas atuações dignas de prêmios. Pitt está perfeito como um personagem mais reservado e com alguns segredos a guardar, e DiCaprio é simplesmente espetacular retratando um ator em busca da volta aos holofotes. O primeiro estava precisando de uma atuação memorável como essa para recuperar um pouco de prestígio, mas o segundo está vivendo uma fase incrível. Dois monólogos de Rick Dalton, um dentro de sua van e outro na gravação de uma cena, são de cair o queixo. Dois ótimos atores, que parecem estar na sua melhor forma justamente quando estrelam produções de Tarantino.
Antes de avançarmos, um pequeno comentário. A participação de Bruce Lee (interpretado por Mike Moh) gerou uma enorme polêmica. O filme passa uma clara mensagem de que o lendário artista marcial era uma pessoa arrogante, e nem de longe o fenômeno que se imagina ter sido. Tarantino diz ter construído sua versão de Lee baseado em relatos de pessoas que convieram com ele, mas mesmo assim não posso evitar de pensar que uma controvérsia dessa poderia ter sido facilmente evitada se o legado do ator não fosse abordado.

A recontagem e a homenagem
Hoje em dia a década de 60 (mais especificamente seus últimos anos) é mundialmente famosa por ter sido a década onde ocorreram os brutais assassinatos cometidos pela seita do maníaco Charles Manson. O mais lembrado ataque é o que ocorreu no dia 9 de agosto de 1969, vitimando cinco pessoas, entre elas uma Sharon Tate grávida (sim, a interpretada por Margot Robbie). Fiquem calmos, eu não estraguei o filme.
Como dito, a seita de Manson e seus ataques não são o ponto principal do filme, mas uma tragédia tão notória e que marcou o cinema da década não poderia simplesmente passar batido. Sem adentrar o território de spoilers, o caminho escolhido por Tarantino para retratar esse fatídico dia é o melhor possível, em mais um momento de pura genialidade do diretor.
Saber do trágico destino de Tate deixa o espectador com um crescente incômodo de que algo com certeza vai acontecer com ela, mas o desenrolar daquela noite de agosto no filme é repleto até o fim de reviravoltas, em uma sequência espetacular e que grita Quentin Tarantino.
Além de ser uma carta de amor à cidade e à indústria cinematográfica daqueles tempos, o filme é uma belíssima homenagem à atriz que rapidamente caía nas graças do público americano e perdeu a vida numa tragédia. Preste atenção em um momento específico: quando Tate está no cinema vendo seu próprio filme, a atriz que vemos na tela é a Sharon Tate de verdade, e não Margot Robbie.

Veredito final
“Era uma vez em... Hollywood” é uma análise aprofundada de um dos momentos mais turbulentos de todo o cinema americano e dos Estados Unidos. Em meio às tensões da Guerra Fria e o crescimento do movimento hippie, temos uma indústria que tenta de tudo para se reinventar.
É nesse cenário repleto de possibilidades que Tarantino conta uma de suas histórias mais densas e profundas. Longo, sem a menor pressa de desenvolver seus personagens, com atuações marcantes e visualmente estilosíssimo, o filme prova por que o americano está entre os maiores diretores de sua geração (discutivelmente, de todos os tempos).
9,5/10







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