top of page

Chris Claremont e X-Men: A reinvenção de uma franquia

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 30 de jul. de 2019
  • 5 min de leitura

Quem olha o tamanho do nome “X-Men” nos dias de hoje não imagina que por muito tempo foi uma série relativamente desconhecida e que beirou o cancelamento. Por um outro lado, quem hoje vê nomes como “Vingadores” arrecadando muito mais dinheiro que X-Men não imagina que o grupo mutante sofreu uma reviravolta que para sempre transformou a história da Marvel, e sem dúvida influenciou o sucesso de outros títulos da empresa. De quadrinho quase cancelado a série mais popular, o que aconteceu?


Obviamente que decisões editoriais e o trabalho de brilhantes desenhistas teve uma enorme influência nisso tudo, mas o nome que mais se associa ao da ressurreição da equipe mutante é o de Chris Claremont.


O longo período no limbo e uma segunda chance

Na segunda metade da década de 1970, o nome “X-Men” era bem desconhecido do público leitor de quadrinhos. A série criada em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, que contava a história de um grupo de seres nascidos com dons especiais e que eram vistos como ameaça pela sociedade, vivia apenas de relançamentos de edições antigas. Não tinha atingido nem de longe o sucesso de outras criações do mesmo período, como Homem-Aranha e Hulk, e até mesmo de outras equipes, como Vingadores e Quarteto Fantástico. O cancelamento era inevitável.


Tentando dar uma nova cara (e aumentar o número de vendas) para a revista, em janeiro de 1975 é lançada Giant Size X-Men #1, assinada por Len Wein e Dave Cockrum. Procurando atrair novos fãs, a equipe, composta outrora apenas por membros americanos (Ciclope, Jean Grey, Fera, Homem de Gelo e Anjo) e com basicamente as mesmas roupas agora possui membros de todas as partes do mundo e com visuais completamente diferentes. Com Ciclope sendo o único remanescente da formação original, agora temos a queniana Tempestade, o alemão Noturno, o russo Colossus, o nativo-americano Pássaro Trovejante e o canadense Wolverine (que havia aparecido pela primeira vez em “O Incrível Hulk #181”, publicada no ano anterior).


Apesar de ter sido uma bela repaginada, o quadrinho ainda não segue bem. As vendas continuam baixas e o número de páginas por edição atinge um recorde negativo (17 por edição). No mesmo período, uma jovem figura que começava a crescer dentro da Marvel (com algumas publicações do Quarteto Fantástico, Demolidor e Punho de Ferro): o escritor chamado Chris Claremont. Demonstrando interesse no novo grupo de mutantes criado por Wein e Cockrum, Claremont assume a revista na edição de número 94, publicada em maio de 1975.


Inicialmente, Claremont surpreende seus colegas de trabalho e o público leitor. O quadrinho realmente tinha uma nova cara. Os personagens (todos mutantes com os mais fascinantes superpoderes) possuíam muita humanidade em suas ações, havia espaço para momentos tocantes e de reflexão, em meio as grandes batalhas comuns aos quadrinhos.


Incialmente com Cockrum no desenho, é apenas na edição número 108, publicada em dezembro de 1977, que a revista encontra seu desenhista ideal. John Byrne assume ao lado de Claremont, e tem início uma das mais duradouras e bem-sucedidas parcerias da história dos quadrinhos.


Lançada em janeiro de 1975, "Giant Size X-Men #1" muda para sempre a história da revista.

Sucesso absoluto

A dupla se mostra muito entrosada, com Claremont sabendo lidar com uma extensa equipe e Byrne sabendo lidar com as “piradas” do escritor. É a partir desse momento que os X-Men tornam-se um sucesso absoluto de vendas e de crítica. As edições sabem equilibrar cenas épicas de ação com momentos extremamente íntimos e delicados. Os membros da escola de Xavier realmente parecem uma família, realizam atividades mundanas (jogam basquete, vão ao shopping). Até hoje é o momento mais aclamado dos mutantes nos seus mais de 50 anos de existência.


Byrne sairia da revista, mas sem antes deixar sua marca. Ele e Claremont produzem algumas das mais icônicas histórias da equipe e dos quadrinhos em geral: A Saga da Fênix Negra e Dias de um Futuro Esquecido, ambas adoradas pelos fãs e aclamadas pela crítica. A dupla também criou personagens que se tornariam indispensáveis para a revista, como Kitty Pryde, Emma Frost e o Clube do Inferno.


Trabalhando com outros artistas, como Marc Silvestri e John Romita Jr, Claremont segue soberano na escrita do quadrinho, produzindo saga icônica atrás de saga icônica. Também são dele alguns dos meus arcos favoritos da equipe, e alguns dos mais recomendados, como Massacre de Mutantes, Inferno e a inesquecível Deus Ama, o Homem Mata. Personagens que se tornariam adorados pelos fãs são criados por Claremont, em conjunto com outros artistas além de John Byrne, como Vampira, Dentes-de-Sabre, Gambit e Psylocke.


Uma história interessante na longa relação de Claremont com os mutantes envolve aquele que hoje é o mais famoso e importante X-Man: Wolverine. Inicialmente, Claremont não gostava do personagem, apesar do baixinho com garras estar se tornando o favorito do público, e ele só se manteve na revista a pedido do também canadense John Byrne. O destino segue seu curso e, em 1982, Claremont topa fazer a primeira minissérie solo do personagem, ao lado de um artista em ascensão na indústria (um tal de Frank Miller.). Chamada simplesmente de “Wolverine”, a minissérie vai às bancas, e é até hoje considerada uma das melhores (senão a melhor) história já feita do personagem. São em momentos como esse que se percebe como Claremont entendia perfeitamente os personagens que estava escrevendo, e como esse entendimento era fundamental para que as histórias tivessem a qualidade que tinham.


O fim de uma era e o legado deixado

Impressionantes 16 anos depois de sua estreia na revista, Claremont (em parceria com outra estrela em ascensão, um tal de Jim Lee) lança uma nova numeração do quadrinho. Em 10 de outubro de 1991, “X-Men #1” chega às bancas, e se torna simplesmente o quadrinho mais vendido de todos os tempos (mais de 8 milhões de exemplares), salientando o lugar da equipe mutante como um dos maiores ícones da cultura pop nos anos 90, liderando as vendas de quadrinhos e recebendo sua própria (e ótima) série animada.


O arco iniciado no reinício da numeração (que envolve um épico confronto contra Magneto) encerra-se em “X-Men #3”, lançado em dezembro de 1991. Essa edição marca também o fim da passagem de Chris Claremont na revista, que se afasta da Marvel por brigas editoriais. Dezesseis anos depois, o relacionamento entre X-Men e Claremont chega ao fim (que não seria eterno. Futuramente, ele voltaria para escrever algumas edições de HQs relacionadas ao grupo mutante.)


Grandes escritores assumem a revista depois de Claremont, e produzem passagens memoráveis. Nomes como Grant Morrison, Joss Whedon e Brian Michael Bendis escrevem para a equipe mutante, e é notável como todos bebem da fonte deixada por Chris Claremont. Seus personagens tornam-se recorrentes e adorados pelos fãs, e as temáticas das histórias seguem muito parecidas.


A passagem de Chris Claremont pelos X-Men é mais um exemplo de um autor estando em perfeita sintonia com sua obra, e mudando para sempre seus conceitos e redefinindo os personagens (Peter David com Hulk, Frank Miller com Batman e Demolidor e o próprio Stan Lee com Homem-Aranha são outros exemplos).


Infelizmente hoje os X-Men não possuem a atenção que merecem, devido a fatores como filmes decepcionantes e decisões editoriais questionáveis. É inegável, no entanto, que a equipe mutante foi responsável por uma das maiores reinvenções da história dos quadrinhos (no próprio cinema a equipe foi pioneira, com o filme de 2000 dando início a febre de super-heróis na sétima arte que temos hoje). Os X-Men tornaram-se a partir da década de 1970 um dos mais importantes segmentos de toda a cultura pop, e grande parte disso se deve a um homem chamado Chris Claremont, que mudou para sempre o modo como o grupo é retratado em todas as mídias.


Assinada por Claremont e Jim Lee, "X-Men #1", é o quadrinho mais vendido da história, com mais de 8 milhões de exemplares.

Comentários


© 2019 Por Salão da Justiça

bottom of page