Análise - Tarantino e a criação de tensão
- Gabriel Chilio Jordão
- 25 de set. de 2019
- 5 min de leitura

Poucas figuras na indústria cinematográfica de hoje têm nome e peso parecidos com o do norte-americano Quentin Tarantino. Recentemente, na crítica que postamos de seu mais novo filme (“Era uma vez em... Hollywood”), comentamos sobre como a simples presença do diretor no comando é mais do que o suficiente para atrair um grande público ao cinema, sem nem saber ao certo qual será a trama da película.
Como todo grande diretor, Tarantino possui suas marcas. Entre elas, podemos facilmente perceber um uso frequente da violência (sempre bem contextualizada), diálogos afiadíssimos e atuações impecáveis (impressionante como os mais variados atores e atrizes atingem seu ápice em produções de Tarantino. Leonardo DiCaprio e Christoph Waltz são apenas alguns exemplos).
Hoje pretendo analisar quatro cenas específicas que estão entre as melhores e mais marcantes de três dos seus últimos quatro filmes. Vamos examinar como Tarantino é mestre em criar suspense e uma atmosfera de tensão absoluta usando apenas diálogos e alguns movimentos de câmera.
ATENÇÃO: SPOILERS DE “BASTARDOS INGLÓRIOS”, “DJANGO LIVRE” E “ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD” A SEGUIR
Bastardos Inglórios – A fazenda

Descrição: Em uma França ocupada na Segunda Guerra Mundial, um fazendeiro é visitado pelo Coronel Hans Landa, do Serviço Secreto Nazista (SS), que está buscando inimigos do estado para serem exterminados (judeus).
E não é que um dos melhores filmes (pessoalmente, meu favorito) de um dos melhores diretores de todos os tempos começa logo com o que é discutivelmente sua melhor cena? A inteligência e perspicácia de Hans Landa (um dos melhores vilões do cinema dos últimos anos) constroem uma cena com tensão total desde o início. O desenrolar dos fatos nos faz pensar que o pobre fazendeiro está conseguindo enganar o nazista, mas aos poucos percebemos quem realmente está no controle daquela situação.
A atuação brilhante de Christoph Waltz é perfeita para a cena. Um coronel que parece estar sendo facilmente ludibriado muda totalmente o tom da cena com algumas mudadas no seu olhar e algumas pequenas decisões (como começar a falar em inglês para que os judeus franceses não saibam o que ele está falando). Adicione isso a uma trilha sonora que sabe exatamente a hora de subir o tom e temos um simples diálogo que parece começar bem, mas aos poucos transforma-se em um momento de completa angústia e apreensão do espectador. Uma cena perfeita para introduzir um excelente filme. Humanamente impossível não sentir um frio na espinha no decorrer do diálogo.
Bastardos Inglórios – A taverna

Descrição: Um grupo de judeus e um soldado britânico conseguem se infiltrar em uma taverna onde está acontecendo um encontro de soldados nazistas.
Impressionante como as duas cenas mais impactantes de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial partem de diálogos (obviamente não terminam como diálogos). Aqui nesse caso, temos o grupo de soldados intrusos que conseguem se infiltrar na taverna por intermédio de uma atriz alemã que está os ajudando. Por já ser na segunda metade do filme, já estamos acostumados a assistir com ceticismo qualquer tipo de diálogo entre quaisquer pessoas que não sejam amigos.
Aqui temos uma diferença em relação à fazenda. Desde o começo o clima já parece mais sombrio, e as chances de sucesso baixas. Adicione a isso o fato de termos na cena inteira um capitão nazista que suspeita de nosso grupo, e mais uma vez a tensão está instalada.
A genialidade dessa cena está justamente no seu clímax. Nosso grupo infelizmente se entrega quando um dos seus integrantes, o tenente Archie Hiccox (Michael Fasbender) faz um simples gesto, que passa despercebido para a esmagadora maioria do público: sinaliza o número três de forma diferente da que os alemães o fazem. Para que não fiquemos confusos, após o caos é que entendemos o que deu errado. Um simples gesto (que por sua vez denuncia a cultura e a nacionalidade de quem o faz) é o suficiente para que tudo vá por água abaixo.
Basta dizer que a cena se encerra da forma mais Tarantino possível.
Django Livre – O jantar

Descrição: No auge do período escravocrata norte-americano, um ex-escravo e seu companheiro caçador de recompensas negociam com o dono de uma fazenda a compra de uma escrava, que na realidade é a esposa do ex-escravo.
Nessa cena temos uma clara demonstração de duas coisas: como o improviso pode mudar completamente uma cena para melhor, e o ator que é Leonardo DiCaprio. Quando o Sr. Calvin Candie se dá conta da armação em que o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e Django (Jamie Foxx) estão tentando o colocar, o homem tem um acesso de loucura. Na cena, o personagem quebra um copo de vidro nas mãos, mas isso não estava no roteiro. Para se manter no personagem, DiCaprio continua a cena com a mão completamente ensanguentada, e só torna a cena ainda mais icônica (a próxima vez que assistir, perceba: no momento em que a mão de DiCaprio está cheia de sangue, tanto Waltz como Foxx olham para ela com uma enorme angústia).
Assim como todas as cenas até aqui, a imprevisibilidade reina. É impossível prever o que vai acontecer, e mínimos detalhes geralmente são o que causam as reviravoltas.
Era uma vez em... Hollywood – O rancho

Descrição: Um dos personagens do filme leva uma garota que conheceu para a casa dela. Simples assim.
O mais novo filme de Tarantino dividiu opiniões. De fato, assisti-lo sem saber o que aconteceu na década de 1960 nos Estados Unidos realmente pode tornar a experiência mais confusa.
Em uma cena, o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) leva uma garota com quem tem flertado desde o começo do filme à casa dela. A moça, hippie (ou devo dizer riponga?) mora em um antigo set de filmagem, transformado em uma espécie de rancho por ela e sua família.
É na chegada de Cliff ao rancho que começamos a nos ligar que algo muito errado provavelmente irá acontecer. A garota simplesmente mora no rancho ocupado pela seita de Charles Manson, serial killer que se tornou uma espécie de ícone pop nos Estados Unidos (por mais bizarro que isso soe).
Reconhecendo o local, Cliff pede para ver o proprietário do set, um antigo amigo. Todos os presentes no rancho não gostam nem um pouco da visita, e dizem apenas que o homem está “dormindo”. Não sendo bestas, imaginamos que isso seja no mínimo um eufemismo. Mesmo assim, nosso corajoso dublê insiste.
O que se segue é uma impecável construção de tensão. O fato de nós espectadores sabermos quem realmente são aquelas pessoas nos deixa com uma senhora apreensão, quase com a certeza de que inevitavelmente algo de ruim irá acontecer (estamos em um filme de Tarantino, afinal de contas). Em um filme cujo tom é majoritariamente cômico e bem-humorado, temos uma cena tenebrosa com elementos de terror e suspense muito bem usados.
O desfecho é mais um soco na nossa cara. Literalmente todas as expectativas são quebradas. O homem realmente estava apenas dormindo, e Cliff conversa com ele e sai sem um arranhão. Tarantino brinca sem a menor dó com seu público: ficamos o tempo todo apreensivos por estarmos esperando uma catástrofe, e nada disso acontece. Genial.







Comentários