Análise – As temáticas de Senhor dos Anéis
- Gabriel Chilio Jordão
- 15 de ago. de 2019
- 6 min de leitura

Seja nas mais de 1200 páginas de livros (que completam incríveis 65 anos da primeira publicação em 2019) ou nas mais de 11 horas de filmes, poucas sagas em toda a cultura pop possuem o tamanho e a influência de Senhor dos Anéis.
Antes de falar sobre sua mais célebre obra, precisamos fazer as devidas homenagens a John Ronald Reuel Tolkien, ou simplesmente J. R. R. Tolkien. Discutivelmente um dos maiores escritores de todos os tempos, o sul-africano criou em suas obras o mais vasto dos mundos que um homem poderia criar. Encheu-os de raças, contos, terras e uma história riquíssima. Fluente em mais de dez línguas (como inglês, espanhol, francês, alemão, latim, holandês, grego, italiano, finlandês, russo e dinamarquês), o exímio poliglota ainda criou linguagens próprias dentro de suas obras na hoje famosa Terra Média. Não só as criou, como escreveu poemas e músicas com suas letras, sendo capaz de dar elementos culturais a línguas que ele mesmo criou. Resumidamente, um gênio.

Três histórias interligadas
A trilogia divide-se em três partes que funcionam muito bem como três histórias completamente distintas. É ainda muito interessante notar como no começo da primeira jornada, temos a sensação de que o vasto mundo da Terra Média já havia passado por muita coisa, e certamente passaria por muito mais. Os personagens referem-se a eventos que nós leitores/espectadores sequer presenciamos. Isso dá uma noção do tamanho do universo habitado por todas essas raças. Sentimos que a jornada de Frodo e companhia é apenas mais um conto na milenar história dessas terras.
Na primeira parte da nossa aventura, conhecemos todos aqueles que viajarão conosco, além de suas motivações, de onde vieram, seu passado na Terra Média. Uma crise nunca vista nessas terras força todas as raças a se unirem para destruir o Um Anel (no momento nas mãos da família Bolseiro), capaz de poder e mal impensáveis. Unida e formada a Sociedade do Anel, nossos guerreiros partem em direção à Montanha da Perdição, único lugar onde o anel poderia ser destruído. Na primeira parte já temos uma ideia do que esperar: monstros que servem ao Lorde Sauron (proprietário do anel) atacam impiedosamente nossos heróis, e o clima de tensão já é instalado. Membros da Sociedade já partem, ainda que um deles fosse por pouco tempo.
Ao final da primeira parte, que por si só já é extremamente longa, nosso grupo acaba se separando, e as duas equipes partem para diferentes destinos. O primeiro livro/filme, que já foi uma tremenda jornada, termina com a sensação de que há muito mais por vir.

Na segunda parte, conhecida como As Duas Torres, acompanhamos a jornada por dois lados: temos a continuação da jornada dos bravos hobbits Frodo e Sam rumo à Montanha da Perdição, e os guerreiros Aragorn, Gimli e Legolas partem em busca de dois hobbits (que os acompanhavam: Merry e Pippin) que desapareceram, e acabam por ajudar o rei de Rohan a proteger suas terras. Durante esses momentos é que Aragorn começa a honrar sua linhagem como o herdeiro de Isildur, o legítimo rei de Gondor (sim, muitos nomes).
Nossos amigos baixinhos e de pés peludos passam por apuros em sua viagem, acentuadas pela presença da criatura Smeagol/Gollum, que apesar de conduzir nossos heróis ao seu destino, começa a deixar claro suas intenções com o Um Anel.
A segunda parte se encerra após uma das mais grandiosas batalhas já vistas. A guerra pelo Abismo de Helm, território de Rohan, é simplesmente uma das coisas mais épicas que já vi. Enquanto isso, Frodo e Sam aproximam-se cada vez mais de seu destino, e a jornada torna-se cada vez mais exaustiva e difícil.

Na conclusão da épica saga, Frodo e Sam terminam sua viagem rumo ao Monte da Perdição, enquanto Aragorn, Gimli, Legolas e o mago Gandalf partem para ajudar as terras de Gondor, fundamentais para a vitória na guerra.
O final de Senhor dos Anéis é épico até o último minuto, repleto de batalhas grandiosas e momentos simplesmente emocionantes. Na sétima arte, uma das maiores trilogias da história do cinema, merecedora de todos os Oscars que venceu.

Nesses parágrafos fiz o mais breve dos resumos da história. Achou que são muitos nomes e informações? Pois é. Não exagerava quando ressaltava o tamanho do mundo criado por Tolkien.
Pois agora podemos analisar os temas mais recorrentes nos três capítulos do épico, e o que eles representam para a obra.
Amizade
Os laços formados entre os personagens moldam muitos dos momentos mais marcantes da trilogia. Antes do personagem que mais simboliza isso, falo também sobre o emblemático discurso de Aragorn ao chegar aos portões de Mordor. Havia acabado de vencer uma duríssima batalha em Minas Tirith, e mesmo assim não hesita em liderar todos os seus camaradas para praticamente a morte certa, apenas para criar uma distração para Frodo e Sam não serem vistos. Une todos os homens (e algumas outras raças) em uma última investida pelo futuro da Terra Média.
E agora para o personagem que melhor representa tudo o que a amizade simboliza em Senhor dos Anéis: Samwise Gamgee. Considerado por muitos o verdadeiro herói da história, o caçoado e tímido colega de Frodo mostra toda sua coragem e todo o valor que dá ao seu companheiro nos momentos em que tudo parece perdido. Se o peso do anel é praticamente insustentável para Frodo, Sam sempre está lá para levantar o espírito do Sr. Frodo, e protegê-lo sempre que necessário. Traído e humilhado, ele não desiste do seu amigo, nunca. Um herói, sem mais. Todos os povos da Terra Média devem muito a Sam, ainda que sem nunca saber o porquê.

Crescimento
Ainda falando dos simpáticos hobbits, sua jornada do calmo e seguro Condado rumo a terras repletas de monstros e desespero servem muito bem como um paralelo para o amadurecimento de nós todos. Um dia, sairemos da nossa zona de conforto, iremos para terras desconhecidas e perigosas.
É fácil entender por que a jornada de Frodo e Sam é tão marcante na memória afetiva de tantas pessoas. O simbolismo por trás de sua jornada reflete muito bem a jornada que todos nós devemos percorrer.

O poder corrompe
O Um Anel é uma arma tão perigosa justamente pelo poder de influência que possui. Homens enlouqueceram pelo desejo de tê-lo. Nações entraram em guerra para poder usá-lo. Até mesmo os mais honrados dos guerreiros (inclusive um membro da Sociedade do Anel) sucumbiram à sua tentação.
O pequeno círculo dourado é uma metáfora a quão sedutor o poder pode ser, e quão perigoso ele é nas mãos erradas. Os livros foram publicados pouco tempo depois de governos autoritários fazerem reinar o terror pela Europa. A mensagem é das mais claras.

A guerra
Poucos sabem, mas Tolkien serviu o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Participou da sangrenta Batalha de Somme, disputada na França e que vitimou mais de um milhão de pessoas.
Tolkien viu amigos e muitos inocentes morrerem diante de seus olhos. É exatamente por isso que ele dá um enfoque tão grande às batalhas em seus livros, e certamente por isso que elas são tão marcantes. A pessoa que as escreveu viu de perto o quão intensas podem ser essas guerras.

Alegorias à Cristo
É perfeitamente possível traçar um paralelo entre a jornada de Frodo rumo ao Monte da Perdição e a vida de Jesus Cristo, símbolo do Catolicismo, na Terra.
Jesus carregava rumo à Gólgota uma cruz que simbolizava o pecado dos homens, Frodo carrega no Um Anel o maior mal presente no mundo. Assim como Jesus é auxiliado por Simão de Cirene para completar o trajeto, muito extenuante, Sam auxilia Frodo nos passos finais de sua subida.
No final, Jesus ascende aos céus conforme completada sua tortura com a cruz. De maneira semelhante, Frodo vai para Aman, as Terras Imortais, após finalizar sua tarefa com o anel. Nos dois casos, o descanso é alcançado após uma árdua tarefa.

Conclusões finais: impossivelmente denso
Esse texto mal arranhou a superfície do incrivelmente denso mundo da Terra Média e de Senhor dos Anéis. Meu objetivo aqui foi mais tentar identificar temáticas que moldam os acontecimentos do filme, e não contar uma história detalhada de tudo o que acontece (o que acho que, francamente, seria impossível).
Percebe-se que os temas que mais se repetem são relativamente “simples”. Nada muito rebuscado ou complicado. É belíssimo como o mestre Tolkien usa esses elementos tão básicos da nossa vida, como o conceito de amizade, para contar uma história tão rica e extensa. Acredito que não importa o escopo do que está sendo produzido, o mais simples ainda estará lá para guiar o caminho.








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