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Análise - Blade Runner: Filosofando no futuro distópico

  • Gabriel Chilio Jordão
  • 14 de ago. de 2019
  • 6 min de leitura

Esse texto é ao mesmo tempo uma homenagem a Rutger Hauer, o Roy do filme, e à própria obra, que se passa no ano dessa publicação (2019).


“No início do século XXI a Tyrell Corporation avançou a evolução de robôs para a fase Nexus – um ser virtualmente idêntico ao ser humano – conhecido como Replicante.

Os replicantes Nexus 6 eram superiores em força e agilidade e pelo menos tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos que os criaram.

Replicantes eram usados fora da Terra para trabalho escravo, na perigosa exploração e colonização de outros planetas.

Após um sangrento motim de uma equipe de combate Nexus 6 em uma colônia extraterrestre, os Replicantes foram declarados ilegais na Terra – sob pena de morte.

Esquadrões especiais de polícia – Unidades Blade Runner -tinham ordens de atirar para matar assim que detectado qualquer Replicante infrator.

Isso não era chamado de execução.

Era chamado de aposentadoria.”


SPOILERS ADIANTE

No dia 25 de junho de 1982 era lançado nos cinemas americanos um filme que inicialmente foi um fracasso de bilheteria e visto com estranheza pela crítica. Décadas depois é que atingiria o status de filme cult e clássico do cinema.

Dirigido por Ridley Scott (de Alien – O Oitavo Passageiro), Blade Runner tornou-se uma das bíblias do gênero conhecido como cyberpunk, e analiso aqui como o filme ajudou a moldar a estética do gênero e como a filosofia e o catolicismo são temas recorrentes.


Megacorporações, carros voadores, androides e desigualdade social

A película ajudou a estabelecer a “norma” para o visual e para muitos dos temas de obras cyberpunk. Clássicos como Ghost in the Shell, Akira e o livro Neuromancer, de William Gibson, foram influenciados. O próprio Blade Runner nasceu como a adaptação do livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Phillip K. Dick, publicado em 1968.

Passando rapidamente pela trama, ela gira em torno de Rick Deckard, um Blade Runner aposentado, que volta à ativa para caçar um grupo de quatro replicantes que fugiram de sua colônia e estão se escondendo na Terra. Paralelamente a isso, Deckard se apaixona por Rachael, uma replicante que trabalha para a Tyrell Corporation, principal fabricante dos replicantes. Inicialmente duvidando de sua vida (não sabia que era replicante), Rachael passa a acompanhar Deckard em sua missão, e vê nele um possível refúgio para as pessoas que inevitavelmente sairão à sua procura.

Passando-se numa Los Angeles de 2019 (o que na época era um futuro muito distante), o filme possui cenários completamente diferentes de outras obras até mesmo da ficção científica, como Star Wars e Star Trek. Tudo é muito escuro e sombrio; os únicos relances de luz e iluminação que temos são nas fachadas dos prédios, nos gigantescos anúncios e nos símbolos neon nos estabelecimentos.

A tecnologia avançou a níveis inimagináveis. Carros voam, robôs fazem o trabalho de policiais e cópias robóticas de animais são colocadas a venda. Esses avanços aumentaram ainda mais a desigualdade entre as classes, no entanto: poucos podem desfrutar de toda essa tecnologia. Conforme poucos detentores da mão de obra praticamente mandam no mundo em suas megacorporações, uma pequena parcela da população mundial já abandonou a Terra, e passa a viver nas colônias extraterrestres. Para os pobres e doentes sobrou esse planeta sujo e inóspito.

As novas invenções da ciência, que possibilitaram a criação de androides idênticos a seres humanos, traz um debate a esse mundo. Com essas cópias sendo idênticas a nós, o que é que nos torna diferente deles? Humanos?

Essas escolhas estéticas e temas tornaram-se recorrentes nas obras do gênero, e fica claro como a fonte Blade Runner foi muito bebida. Uma curiosidade: muitos dos anúncios (e até mesmo personagens) que vemos na Los Angeles de 2019 são japoneses. Explica-se: imaginava-se o completo domínio dos nipônicos sobre os avanços tecnológicos do mundo na época. Não estavam completamente errados.


Um dos característicos cenários do filme. Mas e seu eu te contasse que essa foto é na verdade de Hong Kong nos dias de hoje?

Humanidade em não-humanos e Catolicismo noir

Por mais exóticos e influentes que os visuais de Blade Runner sejam, o filme brilha mais nos seus personagens e nos temas que os envolvem. Voltando a dar mais alguns detalhes da trama, os replicantes caçados por Deckard foram fabricados com memórias (de outras pessoas, claro) embutidas em seus cérebros, para torná-los mais fácil de serem controlados. Isso, no entanto, fez com que começassem a sentir e produzir emoções. Para escravos isso era pouco útil. A solução? Prazo de quatro anos de validade. Nascem, pensam que viveram toda uma vida que nunca foi deles para depois morrerem sem motivo algum.

O grupo no radar de Deckard, liderado por Roy Batty (de longe o melhor personagem do filme), está em busca de opções para prolongar suas vidas. Tirando algumas raras ocasiões (sempre protagonizadas por Roy), o grupo não machuca nenhum ser humano, e é extremamente amável e receptível. Ainda assim são caçados até a morte como porcos. Vilões, certo? Certo?

O filme não esconde que bebe muito da filosofia Racionalista do francês René Descartes. Sua frase mais famosa (“penso, logo existo”) é inclusive citada em um momento do filme. Há quem diga que exista o paralelo Rick Deckard/René Descartes, mas não me aprofundo (apesar de fazer um certo sentido).

Segundo Descartes, o homem só pode alcançar a verdade através de suas abstrações e de sua consciência. A memória, até certo ponto, está no nosso caminho para alcançar a verdade. E aqui onde vejo a grande inspiração do filme com a obra de Descartes. Se a grande lição moral de Blade Runner é questionar a humanidade dos humanos, que em muitas vezes parecem máquinas obcecadas por um objetivo, temos nos replicantes que possuem memória (ainda que não deles) e sentimentos os resquícios de humanidade que parecemos ter perdido ao longo do tempo.


Separados na maternidade?

O filme é obcecado com questões de humanidade e identidade. O que me torna humano? O que me torna único, se minhas memórias não são minhas? Rachael, uma das replicantes, entra numa jornada de autodescobrimento justamente quando descobre que não é humana, conforme pensou ser desde que foi criada.

A grande “missão” de Blade Runner é nos fazer questionar nossas ações em nosso mundo, e como talvez estejamos vivendo apenas para ser mais um (mais uma lágrima na chuva, diria um outro), sem algo que nos diferencie. O próprio lema da Tyrell Corportation é “mais humano do que os humanos”. Roy, que simboliza o ápice da humanidade, sendo mais forte, rápido e inteligente que todos nós, vê como os humanos (especialmente Deckard) tornaram-se meros peões de algo muito maior do que eles. Os replicantes representam tudo aquilo que nós enquanto espécie poderíamos ter sido. No final das contas, podemos chegar a uma conclusão: os replicantes sabem que estão vivos. Os humanos têm medo que não estejam, e por isso os replicantes são uma figura tão incômoda para eles (ou devo dizer nós).

Podemos falar ainda sobre religião, subliminarmente muito presente no filme. Eldon Tyrell, dono da Tyrell Corporation, mora em uma pirâmide ridiculamente maior que todos os outros prédios e acima até mesmo das nuvens. É o principal responsável pela criação dos “novos humanos”, possui na sua fortaleza a capacidade de controlar a quantidade de sol à qual fica exposto. Basicamente Deus. Roy, sua mais brilhante criação, pode ser interpretado inicialmente como Lúcifer, o anjo caído (o personagem literalmente vai do céu à Terra). No momento de sua morte, não só salva Deckard da morte com UM PREGO ENFIADO NA SUA MÃO como segura uma pomba branca (que representa o Espírito Santo), que voa para simbolizar a passagem de Roy aos céus.


O filho pródigo retorna.

Fora da dupla Eldon/Roy, ainda temos a replicante Zhora, que trabalha com uma cobra em seus ombros, animal que é descrito no próprio filme como “aquela que uma vez corrompeu o homem”.

Antes de finalizarmos, um olhar sobre o protagonista Rick Deckard. Durante o filme, ainda que não fique explícito em momento algum, subentende-se que ele possa ser também um replicante. Vamos aos fatos: quando Rachael pergunta a ele se ele já fez nele mesmo o teste Voight-Kampff (usado para detectar replicantes), não obtemos resposta; em um momento bem particular e definitivamente não um erro de cores, os olhos de Deckard brilham exatamente nas mesmas cores das dos replicantes; temos ainda toda a questão envolvendo o unicórnio (essa deixo para vocês tentarem perceber conforme assistem o filme).

Todas essas questões nos levam a crer que Deckard é um replicante, e mata sua própria espécie sem saber. Isso aumenta a ironia de suas ações, mas levanta uma questão: realmente importa se ele é ou não? Existe algo que ainda diferencie os dois? Ao mesmo tempo em que seria irônico um replicante caçando outros, contribuiria para a mensagem do filme um humano sendo salvo e se apaixonando por replicantes.


Olho nele.

À frente do seu tempo

Esse texto foi feito por dois motivos: fazer uma homenagem a um dos meus filmes preferidos de todos os tempos (e que na minha opinião não tem metade do reconhecimento que merece), e mostrar como é um filme brilhante e extremamente denso.

Considerado por muitos chato e entediante, vejo Blade Runner como uma das melhores coisas já feitas na ficção científica, e merecedor de todas as homenagens e referências feitas por obras que o sucederam. Preciso em muitas de suas previsões sobre nosso mundo de hoje e com uma mensagem muito forte, é um filme obrigatório para fãs do bom cinema.


Não poderia finalizar de qualquer outro jeito que não fosse com a cena mais icônica do filme (e na minha opinião uma das mas bonitas da história do cinema).




1 comentário


Rose Emidio
Rose Emidio
14 de ago. de 2019

Um dos meus preferidos também!

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